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Legado de Greenspan expõe tensões da política monetária atual – 30/06/2026 – Opinião

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A morte de Alan Greenspan, aos 100 anos, encerra uma biografia excepcional. Por quase duas décadas à frente do Fed, entre agosto/1987 e janeiro/2006, ele conduziu a economia americana como um maestro, combinando técnica, intuição e tempestividade. Mas seu legado, à luz da crise de 2008, é ambivalente e oferece muitas lições para a atualidade.

A primeira lição é sobre comunicação. Greenspan usava a palavra não para assumir compromissos explícitos, mas para gerir expectativas mantendo margem de manobra. Seu estilo enigmático era uma escolha: evitava previsões rígidas e mantinha flexibilidade para reagir a novas informações.

Isso contrasta com o regime posterior de maior transparência e forward guidance (sinalização futura) de Bernanke em diante, que fez sentido para lidar com os efeitos duradouros da crise de 2008. Nesse ponto, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, ao defender uma comunicação enxuta, retoma a intuição de Greenspan: projeções detalhadas podem criar compromissos pouco úteis no atual contexto, apenas limitando a capacidade de ajuste da política monetária.

A segunda lição é que choques tecnológicos alteram a política monetária ótima. Greenspan percebeu, nos anos 1990, que a difusão da computação e da internet elevava a produtividade, ampliava a oferta potencial e reduzia o juro de equilíbrio. Por isso, resistiu à pressão por altas preventivas de juros.

A tendência atual, inclusive de Warsh, é aplicar esse raciocínio à inteligência artificial: ganhos de produtividade seriam desinflacionários e reduziriam a necessidade de aperto. A analogia, porém, deve ser qualificada. A internet foi um choque “desembodied”, baseado em softwares e conectividade, sem grande necessidade de capital.

A IA atual é “embodied” (incorporada), exigindo semicondutores, data centers e energia. Essa busca por recursos, disputados ainda com um governo altamente endividado, pode elevar o juro de equilíbrio já no curto prazo. Portanto, a natureza do choque tecnológico importa.

A terceira lição é que garantias implícitas enfraquecem a disciplina dos mercados. A famosa advertência de Greenspan sobre a “exuberância irracional” dos mercados, em 1996, buscava alertar contra a sobrevalorização de ativos sem recorrer a instrumentos mais agressivos. Mas, com o tempo, o mercado concluiu que o Fed limitaria quedas relevantes de preços —a chamada “Greenspan put”.

A resposta ao LTCM, em 1998, e ao estouro da bolha dot-com (internet), em 2000, reforçou essa percepção, comprimindo prêmios de risco e incentivando maior tomada de risco. Hoje, em mercados altamente dependentes dos sinais dos bancos centrais, o risco de uma nova “policy put” permanece. A agenda de Warsh de menos comunicação, mais discricionariedade e redução do balanço, pode ser lida como uma tentativa de restaurar disciplina no mercado.

A quarta lição é que estabilidade de preços não garante estabilidade financeira. Sob Greenspan, a inflação ficou baixa e a economia estável, enquanto desequilíbrios financeiros cresciam: da bolha de tecnologia ao boom imobiliário que levou à crise de 2008. Sua confiança na eficiência dos mercados levou à subestimação da alavancagem e das distorções em preços de ativos. Hoje, com IA e valuations pressionados, o risco de confundir estabilidade inflacionária com estabilidade financeira volta a crescer. Uma regulação adequada, sempre um alvo móvel, deve buscar mitigar esse risco.

Em suma, o legado de Greenspan não oferece um manual, mas um conjunto de tensões que ainda moldam a política monetária contemporânea: transparência vs. flexibilidade, choques de oferta vs. demanda, estabilidade econômica vs. financeira, intervenção vs. disciplina de mercado. A lição final é que a política monetária não falha por falta de teoria, mas por excesso de confiança nos mercados, nos modelos ou na capacidade de antecipar o futuro.

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