InícioOpiniãoInovação pública exige continuidade - 07/08/2026 - Papo de Responsa

Inovação pública exige continuidade – 07/08/2026 – Papo de Responsa

Publicado em

spot_img

A inovação pública já não é um tema secundário no Brasil. Nos últimos anos, governos municipais, estaduais e federais passaram a criar laboratórios, lançar editais, mapear desafios, testar soluções digitais e se aproximar de startups, universidades e organizações da sociedade civil. O país aprendeu a colocar inovação na agenda.

O problema é que colocar na agenda não significa sustentar no tempo. Estudos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Enap (Escola Nacional de Administração Pública) indicam que 28,3% dos projetos de inovação pública não são mantidos após troca de gestão. Em políticas mais sensíveis à orientação política de cada governo, essa taxa chega a 30%.

O dado expõe uma fragilidade conhecida da administração pública brasileira: até mesmo iniciativas bem estruturadas podem desaparecer quando muda a gestão, acaba o orçamento ou sai a equipe responsável.

O desafio, portanto, mudou de natureza. Já não se trata apenas de convencer o setor público a inovar. Trata-se de construir condições para que a inovação sobreviva à rotina da máquina pública.

O caso do Pitch Gov SP ajuda a entender o problema. Criado pelo governo de São Paulo para conectar startups a desafios públicos, o programa conseguiu mobilizar o ecossistema e testar soluções entre 2015 e 2019.

Mas, na passagem do piloto para a escala, encontrou barreiras na antiga lei de licitações, que não previa a contratação de tecnologias com risco inerente. O teste funcionou. A implementação, não.

Esse tipo de descontinuidade revela uma confusão frequente. Um governo pode contratar projetos de inovação sem, necessariamente, se tornar um governo inovador.

Pilotos, protótipos e plataformas digitais têm valor, mas não bastam se não houver mudança concreta no serviço prestado ao cidadão, no tempo de resposta, custo, acesso ou na qualidade da política pública.

A escala potencial é enorme. Compras públicas brasileiras movimentam R$ 1 trilhão por ano, equivalente a 16% do PIB (Produto Interno Bruto). É difícil imaginar um instrumento mais poderoso de indução econômica e tecnológica.

A nova lei de licitações, a encomenda tecnológica e o contrato público para solução inovadora abriram caminhos para contratar soluções com maior segurança jurídica e foco em resultado, não apenas em menor preço.

Ainda assim, a existência de instrumentos legais não resolve, por si só, o problema. A inovação pública depende de capacidade institucional. É preciso saber formular o desafio, estruturar a contratação, medir resultados, gerir riscos e aprender com a execução.

Algumas experiências apontam caminhos. Recife (PE) mapeou desafios urbanos e organizou contratos em etapas de teste e validação. Salvador (BA) usou inovação para qualificar bases de IPTU e ampliar potencial de arrecadação sem aumentar impostos. O InovaHC, no Hospital das Clínicas de São Paulo, testou soluções tecnológicas em ambiente hospitalar.

Em comum, esses casos mostram que a inovação ganha força quando parte de problemas concretos e opera com método.

A experiência observada pelo Impact Hub em diferentes projetos de inovação pública em 2025 aponta para uma conclusão central: o que sustenta a inovação não é apenas a boa ideia, mas a governança documentada.

Processos, papéis, critérios, indicadores e aprendizados não podem depender da memória de quem participou da execução. Quando isso acontece, cada troca de gestão obriga o poder público a recomeçar quase do zero.

Governança documentada funciona como blindagem institucional. Ela registra decisões, dá previsibilidade, orienta equipes, preserva conhecimento e permite que a próxima gestão saiba de onde partir.

Somada à formação de servidores e à manutenção de indicadores ativos, cria as condições para que uma iniciativa deixe de ser um projeto isolado e se aproxime de uma política pública.

O Brasil já demonstrou que sabe experimentar. O segundo passo é mais difícil, menos visível e provavelmente menos atraente para a fotografia de lançamento.

Mas é ele que define se a inovação pública será apenas uma sucessão de boas ideias interrompidas ou um caminho consistente para melhorar a vida das pessoas. Inovar no setor público, hoje, não é apenas começar diferente. É conseguir continuar.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Veja a matéria completa aqui!

Últimas Notícias

Estátua de 11 metros da ‘Mãe Rainha das Trevas’ no Ceará provoca debate sobre liberdade religiosa

A instalação de uma estátua de 11 metros de altura dedicada à figura conhecida...

Remédios em falta: A irregularidade do abastecimento de psicotrópicos | Colunas 

Como se não bastassem todos os determinantes sociais, ambientais e comportamentais do adoecimento mental...

Pitbull leva 32 pontos na cabeça e passa por cirurgia após proteger família em invasão de onça-parda em SP

Mirella disse ter acordado para amamentar a filha de três meses quando...

Jadson, ex-Corinthians, é preso por violência doméstica contra a mulher no Paraná

O ex-jogador de futebol Jadson foi preso neste sábado (08) por suspeita de ter...

Veja Também

Estátua de 11 metros da ‘Mãe Rainha das Trevas’ no Ceará provoca debate sobre liberdade religiosa

A instalação de uma estátua de 11 metros de altura dedicada à figura conhecida...

Remédios em falta: A irregularidade do abastecimento de psicotrópicos | Colunas 

Como se não bastassem todos os determinantes sociais, ambientais e comportamentais do adoecimento mental...

Pitbull leva 32 pontos na cabeça e passa por cirurgia após proteger família em invasão de onça-parda em SP

Mirella disse ter acordado para amamentar a filha de três meses quando...