Um jovem se emociona diante de uma plateia de pais e professores em uma universidade dos Estados Unidos. “Não somos apenas pessoas hipersensíveis que não sabem lidar com a vida”, ele diz. “Esta não é uma vida normal. Estamos tentando sobreviver em um deserto social. Não é que simplesmente não queiramos largar nossos celulares. Estamos presos a eles.”
O palestrante é Seán Killingsworth, fundador do Reconnect, movimento que surgiu no ambiente universitário da Flórida com uma proposta que vem ganhando força internacionalmente entre jovens: criar espaços e eventos “phone-free”, ou seja, livres de celulares. O objetivo é se desconectar do ambiente digital para se conectar presencialmente. Eles são da geração que viveu a infância e a adolescência nas telas e querem experimentar sensações que desconhecem: a desaceleração, a contemplação, a concentração no momento presente.
Na Europa, existe o Offline Club, que começou com universitários de Amsterdã e hoje está presente em várias cidades, entre elas, Paris, Viena, Lisboa, Londres, Madri, Milão e Zurique. Há variados tipos de eventos livres de celulares, como caminhadas, lançamentos de livros, oficinas de artes e até finais de semana em hotéis bucólicos. Os convites trazem frases como “Inspire-se pela calma da natureza, o lugar perfeito para se conectar com você mesmo”, “Abra espaço para seus pensamentos e sua criatividade seguirem seu próprio ritmo.”
É totalmente equivocado olhar para esses movimentos como coisa de alternativo ou “alterna”, “hippie”, “bicho-grilo”, para usar uma gíria dos avós dessa geração. A capacidade de se desconectar digitalmente começa a ser vista como um ativo inclusive no mercado de trabalho, em oposição a um mundo no qual o número de seguidores nas redes sociais pode definir contratações e valor de remuneração.
Esses movimentos, aliás, já organizam eventos profissionais, como encontro de lideranças e de equipes de empresas, lançamento de produtos e até “festas da firma”. Os gestores que já os procuraram falaram em “proporcionar mais conexão entre os funcionários”, por exemplo, e “levá-los a pensar fora da caixa”.
Não é à toa que esses movimentos de desconexão estejam brotando em universidades. Depois de passar a vida escolar toda dominada pelos celulares, estudando e lendo muito pouco, esses jovens se deparam com uma dificuldade extrema de encarar as aulas e os textos mais complexos do ensino superior. Sentem na pele a impossibilidade de uma formação realmente consistente.
O funil das melhores universidades acaba por selecionar quem é capaz de deixar o celular de lado. Pergunte a alunos de medicina da USP, por exemplo, ou de qualquer curso de alta concorrência se ficavam rolando o dedo em videozinho de rede social ou fazendo redação com IA quando se preparavam para o vestibular.
Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, com postos sendo reduzidos pela tecnologia, o valorizado não será justamente o “alterna” e sua boa formação, capacidade de concentração e equilíbrio emocional?

