A indústria do tabaco, para não trair suas tradições, vem aumentando sua agressividade no esforço para reverter a queda de fumantes que vinha sendo observada globalmente e no Brasil.
Seus esforços concentram-se em: lançar produtos à base de nicotina, como se inofensivos fossem, para manter as pessoas dependentes e, com isso, estimular o uso dual; introduzir aromatizantes no cigarro eletrônico e atrair o jovem consumidor; introduzir nicotina sintética nos produtos para aumentar a dependência; estimular a venda pela internet, pontos de vendas fixos ou em festas e baladas, mesmo nos países que não legalizaram os cigarros eletrônicos e aquecidos. Usam a venda ilegal para criar mercado e pressionar a legalização de seus produtos. Só ingênuos acreditam que os contrabandistas produzem e vendem esses fumígenos ao arrepio das poderosas tabaqueiras.
Há mais energia aplicada: financiar veladamente, ou não, a indústria de propaganda e do cinema para voltar a apresentar produções com atores e personalidades com cigarros —imagens que haviam desaparecido nos últimos 30 anos ressurgiram; e patrocinar, com disfarce para fugir da legislação, eventos como a recente Parada LGBTQIA+ e outros eventos culturais.
Outro caminho é a inserção na mídia. No último dia 4 de setembro, a Phillip Morris Brasil (PMB) e a British American Tobacco (BAT Brasil) estavam entre os patrocinadores de um caderno especial do jornal Valor, sob o título de “Mercado ilegal”. Nele, o presidente da PMB afirma: “É preciso tomar uma decisão: se queremos deixar esse mercado de produtos de tabaco e de nicotina sem combustão nas mãos do Estado ou se queremos deixar seu controle em mãos ilícitas e criminosas”. Ele talvez desconheça que o mercado de tabaco já está em mãos criminosas legalizadas, pois há mais de 70 anos sabemos que fumar adoece e mata pessoas. Um outro artifício é reforçar a cooptação ingênua ou interessada de pesquisadores universitários mundo afora, com artigos sendo publicados em prestigiadas revistas científicas.
Abaixo, o que é preciso fazer:
1 – Manter a proibição da comercialização de produtos como os cigarros eletrônicos, sachês e dispositivos de tabaco aquecido;
2 – Para isso, persistente e rigorosa orientação e fiscalização nos estados e municípios para inibir vendas em lojas e no comércio em geral, em atividades e eventos sociais, esportivos e culturais;
3 – O governo federal deve bloquear a venda pela internet e por aplicativos desses produtos;
4 – Cessar a venda de cigarros avulsos em lojas, bares, padarias, bancas de jornais e ambulantes;
5 – Intensificar, a partir de orientação do Ministério da Saúde, esclarecimentos contínuos sobre os malefícios do tabagismo e dos produtos com nicotina e sem tabaco queimado. Incluir a comunicação em toda a rede de ensino e de saúde e em todos os veículos de comunicação;
6 – Ampla campanha nacional sobre os benefícios da proibição de fumar produtos do tabaco e vapes em ambientes internos;
7 – Estabelecer meta para reduzir a prevalência de consumo de tabaco para até 5% para todas as faixas etárias e estratos socioeconômicos até 2040;
8 – Proibição indefinida de venda de produtos de tabaco para nascidos a partir de determinado ano, como Reino Unido e outros países fizeram. Exemplo: nascidos a partir de 2010, atualmente com 16 anos de idade ou menos;
9 – Fim de qualquer apoio governamental para o cultivo do tabaco;
10 – Apoio governamental para os pequenos agricultores deixarem de plantar tabaco e migrarem para a produção de alimentos. Garantir apoio econômico e técnico por longo prazo para que, dessa forma, os pequenos agricultores migrem de produção;
11 – Proibição de todos os agentes aromatizantes e outros aditivos em produtos de tabaco;
12 – Congelamento da oferta de novas marcas e suas variantes;
13 – Medidas para reduzir os lucros e o poder de fixação de preços dos fornecedores de tabaco;
14 – Aumento imediato da idade mínima para venda dos produtos do tabaco: 18 para 21 anos;
15 – Como estabelecido para o amianto, datar o fim da fabricação e comercialização de produtos do tabaco e de nicotina. Fim da indústria do tabaco até 2050.
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