Se dependesse da abstinência de álcool, os EUA estariam hoje prestando contas ao rei Charles. Em outras palavras, é o que afirma o livro “Cocked and Boozy: an Intoxicated History of the American Revolution”, lançado nos calcanhares deste 4 de julho, quando se comemoram os 250 anos da independência dos Estados Unidos.
A tradução do título é mais ou menos “Bêbado e Pinguço: uma História Embriagante da Revolução Americana”. No livro, a historiadora Brooke Barbier destrincha os hábitos etílicos dos fundadores da nação e revela fatos curiosos do processo emancipatório (dizia-se que a libertação do jugo colonial foi concebida entre um barril e uma tigela de ponche).
Todos os heróis daquele momento tinham relação estreita e constante com a nobre pisação de jaca. Como bebiam ao conspirar contra a coroa britânica, pode-se dizer que bebiam com responsabilidade.
Antes de se tornar estátua equestre e o primeiro presidente, George Washington já usava o álcool como arma: ofereceu galões do destilado caribenho para convencer eleitores na disputa por um cargo legislativo. A prática era comum na época. Votava-se com a consciência cambaleante sem perder o rebolado.
O ícone da nota de um dólar também foi dono da maior destilaria dos EUA do século 18. Produzia uísque de centeio, diferente do escocês e do bourbon, que começava a ganhar terreno a oeste, no Kentucky, onde o milho brotava facilmente. Os barris de Washington vendiam como água.
A água, aliás, tinha o péssimo costume de apodrecer nos poços naqueles tempos. Daí que John Adams, o segundo presidente, tomava cidra no café da manhã —ele e a torcida do time de críquete de Boston. Sua família também produzia cerveja, hoje representada pela lager artesanal Samuel Adams.
Thomas Jefferson gastava 13% de seu orçamento na Casa Branca em vinhos importados da França, onde morou. As garrafas, oferecidas em jantares cotidianos, vinham de Bordeaux, Burgundy, Champagne e Provença.
Benjamin Franklin é sem dúvida o founding drinker. Dizia que “o vinho é a prova de que Deus nos ama”. Em 1937, quando os ingleses davam as cartas, dificultando, inclusive, a importação de melaço de cana do Caribe, matéria-prima do rum, ele publicou o assaz oportuno “The Drinker’s Dictionary”, com mais de 200 sinônimos para “bêbado”. Um dos mais curiosos é “cherubimical” —a alusão angelical pode ter a ver com “estar alto, nas alturas”.
Ao assinar a Declaração de Independência, suando sob as perucas brancas, os pais fundadores brindaram com Madeira. Era o que se bebia, ao lado do ponche, nas muitas tavernas de Boston e de Filadélfia, berço do documento. O vinho era importado da ilha portuguesa que lhe dá nome; era relativamente barato e tinha a conveniência de melhorar durante a viagem, sob efeito do balançar dos navios.
Boston flip
- 45 ml de rye (uísque de centeio)
- 45 ml de vinho Madeira
- 7,5 ml de xarope de açúcar
- Clara de um ovo
Bata os ingredientes a seco e depois repita a operação com gelo. Coe para uma taça coupe. Finalize com pó de noz-moscada.
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