Em 2019, a Igreja da Inglaterra decidiu investigar as origens do dinheiro de um de seus fundos, criado pela rainha Anne em 1704 para financiar o clero pobre. A auditoria forense concluiu que o fundo recebeu doações de fortunas atribuídas ao tráfico de africanos e investiu na South Sea Company, responsável pelo transporte de ao menos 34 mil escravizados.
Diante disso, a Igreja pediu desculpas públicas e comprometeu £ 100 milhões, cerca de R$ 700 milhões, com a reparação histórica. O montante será investido e doado a iniciativas lideradas por comunidades negras nos países da diáspora africana.
Nas últimas duas décadas, iniciativas de reparação financeira surgiram nos dois lados do Atlântico. Marcas da escravização foram encontradas nas fortunas de diferentes instituições.
Os jesuítas americanos, que venderam 272 escravizados em 1838 para salvar a Universidade de Georgetown, destinaram US$ 100 milhões a seus descendentes. A Universidade de Glasgow, que recebeu doações de senhores do tabaco e do açúcar, destinará £ 20 milhões para reparação. E o Guardian, jornal fundado por um comerciante de algodão colhido por escravizados, criou um fundo de £ 10 milhões.
No Brasil, pressionada por um inquérito do MPF (Ministério Público Federal), a Caixa Econômica identificou 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no século 19, dinheiro guardado para comprar alforrias e que nunca foi sacado nem devolvido às famílias.
O caminho, porém, não é reto. Neste mês, a igreja inglesa confirmou que seu fundo de reparação enfrenta contestação judicial e pode demorar mais do que o esperado para ser investido.
A iniciativa da Igreja da Inglaterra é o passo seguinte aos tardios pedidos de desculpas que instituições religiosas têm feito. Há menos de dois meses, Leão 14 tornou-se o primeiro papa a reconhecer que a própria Santa Sé legitimou a escravização. Resta saber se fará o movimento seguinte: follow the money.
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