Jon Fosse já era homem maduro quando, vivendo num país onde predominam ateus e luteranos, abraçou o catolicismo. É bonito ouvi-lo falar sobre como aconteceu essa aproximação.
Não há nada ou quase nada de deus ou promessas do além no discurso do escritor. Fosse ressalta a liturgia, o ritual, a cerimônia. Transmite a impressão de que a forma de celebrar a fé é mais importante do que a fé em si. É um arrebatamento estético, não divino. Ou divino por meio da estética.
É algo que condiz com a literatura de Fosse. Ao conversar com leitores, não é incomum ouvir frases como “não sei nem dizer por que gostei tanto desse autor”. Sempre há um mistério – esta é uma coluna sobre mistérios – no que faz a gente ir além de admirar racionalmente uma literatura para se sentir profundamente tocado por essa arte.
Os livros de Fosse são marcados por paisagens geladas e fiordes imponentes, pelas repetições, pela circularidade, por um ritmo muitas vezes moroso capaz de nos provocar um efeito hipnótico. Não é um autor de tramas mirabolantes, longe disso. Sua graça não se dá pelo que conta, mas pela forma como conta, pelas camadas subterrâneas de seu texto.
“As paredes estão lá, e é como se vozes silenciosas falassem a partir delas, existe um grande silêncio nas paredes e esse silêncio diz coisas que jamais podem ser ditas em palavras”. Pescado de “É a Ales” (Companhia das Letras, tradução de Guilherme da Silva Braga), esse silêncio nas paredes que diz coisas indizíveis dá uma boa dimensão dessa literatura que valeu ao autor o Nobel de 2023.
Diversos livros de Fosse estão disponíveis no Brasil. Há títulos de teatro e de poesia, mas aqui me concentrarei somente nas novelas e romances. Praticamente todos deixaram suas marcas na minha caminhada como leitor.

