Converse com alguém de um país desenvolvido sobre escolas de tempo integral e ouvirá: “O que é uma escola de tempo integral?”. Depois da explicação, a resposta costuma ser simples: “Ah, entendi. Aqui a gente chama isso de escola”. Afinal, o que no Brasil chamamos de tempo integral, sete horas diárias contra cinco da escola “regular”, é, nesses países, o padrão.
A anedota dimensiona o nosso atraso e serve de pano de fundo para a discussão provocada pelo estudo de Laura Müller Machado e Ricardo Paes de Barros (et al.), divulgado em reportagem desta Folha (“Queda no Ideb das escolas em tempo integral, ‘bala de prata’ da educação no Brasil, acende alerta”, 12/7).
O trabalho mostra que a vantagem média das escolas de ensino médio em tempo integral sobre as regulares no Ideb diminuiu entre 2019 e 2023. Os autores levantam a hipótese de que a ampliação da jornada estaria perdendo força como estratégia para melhorar a educação, interpretação destacada na reportagem e em editorial deste jornal (“Monitorar o ensino integral”, 14/7).
O alerta merece atenção. Mas também merece escrutínio.
Primeiro, porque a comparação atravessa um período excepcional. Os estudantes avaliados em 2023 tiveram boa parte do ensino médio remoto e, em diversos países, as maiores perdas de aprendizagem durante a pandemia concentraram-se entre escolas que partiam de níveis mais elevados de desempenho.
Segundo, por questões metodológicas. O estudo não esclarece como compara escolas consolidadas com outras recém-ingressas no modelo e como trata a diferença entre escolas em que todos os estudantes estão em jornada ampliada com outras em que apenas 10% das matrículas são em tempo integral.
Terceiro, porque cerca de dois terços da redução observada decorrem do fluxo escolar, e apenas um terço da aprendizagem é medido pelo Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Em um contexto de aumentos artificiais das taxas de aprovação, esse resultado recomenda muito mais cautela do que o alarde provocado.
Por tudo isso, o estudo parece insuficiente para justificar uma puxada de freio de mão numa agenda tão estratégica, como defendem os autores. Mais importante do que perguntar se o tempo integral continua fazendo sentido é discutir como preservar sua qualidade durante uma expansão em larga escala.
Antes, porém, convém separar dois conceitos. Escola de tempo integral é ampliação da jornada. Educação integral é uma concepção voltada ao desenvolvimento pleno dos estudantes. O tempo integral não é um fim, mas a condição que torna esse projeto possível. Em cinco horas diárias, realidade de 75% dos alunos do ensino médio, isso não cabe.
O tempo adicional permite recuperar aprendizagens, ampliar atividades culturais, esportivas e socioemocionais e integrar melhor a educação profissional ao currículo. Ou seja, oferece experiências que estudantes mais favorecidos encontram fora da escola, mas das quais milhões de jovens dependem exclusivamente dela. A literatura associa esse conjunto a melhores trajetórias escolares, maior permanência, acesso ao ensino superior, melhores oportunidades de trabalho e redução das desigualdades. Tudo isso, porém, depende da qualidade da implementação.
Transformar uma escola regular em uma escola de educação integral, em tempo integral, requer infraestrutura, professores em dedicação exclusiva, reorganização curricular, formação intensiva das equipes, gestão escolar profissionalizada e apoio permanente às escolas. Implementar isso em escala é um enorme desafio, mas Pernambuco, referência na década passada, mostrou que é possível. Reduziu a evasão de 27% para 1%, melhorou a aprendizagem e chegou ao topo do Ideb em 2015. Por outro lado, nos últimos anos, alguns estados expandiram a oferta flexibilizando componentes centrais do modelo e reduzindo o apoio às escolas. É precisamente aí que o debate público precisa se debruçar.
Para muita gente, a mensagem que ficou do estudo foi: talvez seja hora de rever o entusiasmo em torno do tempo integral. Para nós, o caminho é justamente o oposto: renovar o compromisso, produzir melhores evidências e fortalecer a implementação. Para que, no futuro breve, “escola de tempo integral” vire simplesmente “escola”. Pública e de muita qualidade.
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