Julho Verde não é apenas uma campanha de conscientização. É um alerta urgente para uma realidade que ainda recebe pouca atenção: a maioria dos brasileiros descobre o câncer de cabeça e pescoço em estágios avançados, quando as chances de cura diminuem e os tratamentos se tornam mais agressivos. Em muitos casos, o maior inimigo não é apenas a doença, mas o silêncio que a cerca.
Os cânceres que acometem a boca, a língua, a garganta, a laringe, a faringe, o nariz, os seios da face e as glândulas salivares. Embora muitas vezes silenciosa no início, a doença costuma emitir sinais que não devem ser ignorados. Feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, nódulos no pescoço e sangramentos frequentes podem indicar algo mais sério e exigem avaliação médica.
O problema é que ainda existe uma cultura de negligência em relação a esses sintomas. Muitas pessoas convivem por meses com desconfortos aparentemente banais, adiando a procura por atendimento. Outras sequer sabem que esses sinais podem estar relacionados a um câncer. Quando finalmente chegam aos serviços especializados, o tumor já se encontra em estágio avançado, limitando as possibilidades terapêuticas e aumentando o sofrimento.
Essa demora cobra um preço alto. O tratamento do câncer de cabeça e pescoço frequentemente envolve cirurgias extensas, radioterapia e quimioterapia. Em alguns casos, pode comprometer funções essenciais como falar, mastigar, engolir e até respirar. As sequelas ultrapassam o aspecto físico: afetam a autoestima, a convivência social, a capacidade de trabalhar e a saúde emocional dos pacientes e de suas famílias.
HPV e prevenção: o que mudou nos últimos anos
Nos últimos anos, outro fator ganhou importância crescente: a infecção pelo HPV. O vírus, transmitido principalmente por contato sexual, está relacionado ao aumento de tumores na região da garganta, inclusive entre pessoas mais jovens e sem histórico de tabagismo. Essa mudança no perfil epidemiológico mostra que a prevenção precisa acompanhar as transformações da sociedade.
Nesse contexto, a vacinação contra o HPV representa um dos maiores avanços da medicina preventiva das últimas décadas. Imunizar crianças e adolescentes significa proteger gerações inteiras contra doenças que podem surgir muitos anos depois. Trata-se de uma medida segura, eficaz e capaz de salvar vidas, mas que ainda enfrenta desinformação e baixas coberturas vacinais em diversas regiões do país.
Também é fundamental reforçar a importância dos hábitos saudáveis. Não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, manter boa higiene bucal, praticar sexo seguro e realizar consultas médicas regulares são atitudes simples, mas capazes de reduzir riscos e favorecer o diagnóstico precoce.
O Julho Verde nos lembra que combater o câncer não depende apenas de tecnologias avançadas ou tratamentos inovadores. Depende, sobretudo, de informação de qualidade, acesso oportuno aos serviços de saúde e compromisso coletivo com a prevenção.
Precisamos falar mais sobre esses tumores. Precisamos ensinar a população a reconhecer os sinais de alerta e garantir que exames e consultas especializadas estejam disponíveis para todos, sem demora.
Porque, diante do câncer de cabeça e pescoço, o tempo faz diferença. Cada dia perdido pode significar uma oportunidade a menos de cura. Cada diagnóstico precoce representa menos sofrimento, tratamentos menos agressivos e mais qualidade de vida.
Que o Julho Verde seja, portanto, mais do que uma campanha anual. Que seja um compromisso permanente com a informação, a prevenção e a valorização da vida. Afinal, quando o assunto é câncer, o silêncio não protege. O silêncio mata.
*Texto escrito pelo cirurgião de cabeça e pescoço Antonio José Gonçalves -(CRM-SP 25.374 | RQE-SP 18.049 e 19.162), presidente da Associação Paulista de Medicina (APM)

