No Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26), especialistas chamam a atenção para um efeito pouco percebido das férias escolares: o aumento do número de pessoas idosas que deixam de comparecer a consultas, exames e sessões de reabilitação para cuidar dos netos. O comportamento, comum em muitas famílias, pode atrasar diagnósticos, comprometer tratamentos e trazer prejuízos tanto para os pacientes quanto para o sistema de saúde.
Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), embora não haja um levantamento nacional consolidado sobre o tema, estudos amostrais realizados em diferentes estados mostram que o índice de faltas, que normalmente varia entre 20% e 30%, pode chegar a quase 40% durante o mês de julho. Isso representa um aumento de aproximadamente 25% a 50% em relação ao padrão habitual.
O crescimento é observado em cidades como São Paulo. De acordo com o médico geriatra Eduardo Canteiro Cruz, diretor administrativo da SBGG, o número de faltas pode aumentar em até 30% ao longo do período de férias.
“O principal motivo não é o inverno, mas o fato de muitos avós integrarem a rede de apoio das famílias durante as férias escolares, quando os pais nem sempre conseguem estar disponíveis. Eles acabam priorizando o cuidado com os netos e adiando necessidades importantes relacionadas à própria saúde”, explica.
Atraso no tratamento pode trazer consequências
Para os especialistas, faltar a uma consulta vai muito além de perder um horário agendado. O adiamento do acompanhamento médico pode atrasar diagnósticos, interromper tratamentos e comprometer processos de reabilitação. Segundo Eduardo, algumas doenças exigem acompanhamento rigoroso e qualquer atraso pode influenciar diretamente o prognóstico.
“Em doenças como o câncer, por exemplo, faltar a uma consulta significa assumir um risco maior para o próprio tratamento. Além disso, do ponto de vista do sistema público, trata-se de um recurso que deixa de ser utilizado, em um cenário em que a demanda já é muito superior à oferta”, afirma.
Ele destaca ainda que a interrupção de tratamentos de reabilitação pode fazer com que a pessoa idosa perca parte dos avanços conquistados, tornando-se novamente mais vulnerável.
Convivência é positiva, mas sem sobrecarga
Para a terapeuta ocupacional e doutora em Gerontologia, Elcyana Bezerra Carvalho, conselheira da SBGG no Ceará, participar da rotina dos netos faz parte da chamada “avosidade” e traz benefícios emocionais para toda a família. O problema surge quando essa participação passa a substituir os próprios cuidados com a saúde.
“Existe uma diferença entre conviver com os netos e assumir a responsabilidade diária pelos cuidados. A convivência costuma ser prazerosa, mas o cuidado cotidiano exige reorganizar horários, compromissos e toda a rotina”, explica.
Segundo ela, o maior desafio é evitar que a dedicação aos netos faça com que os avós deixem de lado hábitos fundamentais para um envelhecimento saudável.
“Quando toda a rotina passa a girar em torno das necessidades dos netos, existe o risco de a pessoa idosa adiar atividades físicas, momentos de descanso, participação social e o acompanhamento médico, que também são essenciais para sua qualidade de vida.”
Férias também podem fortalecer os laços familiares
Apesar do alerta, os especialistas reforçam que a convivência entre avós e netos deve ser incentivada. O período de férias escolares pode representar uma oportunidade para fortalecer vínculos afetivos e criar lembranças importantes entre diferentes gerações.
O desafio, segundo a SBGG, é encontrar um equilíbrio para que o apoio oferecido pelos avós não aconteça às custas da própria saúde.
“As férias são uma excelente oportunidade para criar boas memórias e fortalecer os laços familiares. O importante é que isso não signifique abrir mão das consultas, dos exames ou dos cuidados necessários para garantir qualidade de vida também na velhice”, conclui Eduardo.

