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De como o futebol gera epifania

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Redação Tribuna do Norte




14h00

Quando a bola rolar neste domingo, na final da Copa, o tempo já terá vencido a partida. Porque há histórias que parecem recusadas pela lógica e acolhidas pela poesia, como se um velho cronista do invisível as tivesse escrito à luz das estrelas. O futebol, que tantas vezes se alimenta do improvável, também conhece esses instantes em que o destino revela uma delicadeza quase divina.

Há uns 17 ou 20 anos, umas fotos pareciam apenas cumprir a função modesta de guardar o sorriso de crianças ao lado de um jovem que já encantava o mundo. Eram meninos das categorias de base do Barcelona, de olhos acesos pelo encantamento, felizes por dividirem alguns segundos com Lionel Messi, que naquele tempo começava a desenhar uma nova geografia do futebol.

Porém, as imagens nunca pertencem só ao presente. Dormem em silêncio, esperando que os anos lhes revelem um significado oculto. Entre aqueles pequenos torcedores estavam futuros protagonistas de uma mesma história.

Gavi, Cubarsí, Dani Olmo, Joan García e Lamine Yamal, as crianças comuns para quem olhava de fora, foram escolhidas pelo tempo e pelo destino para regressar, um dia, ao lado do ídolo que admiravam, disputando a bola com ele.

A mais bela dessas fotografias, entretanto, nasceu de um gesto ainda mais simples. Em 2007, durante uma campanha publicitária da Unicef, Messi aparece banhando um bebê numa pequena banheira azul de plástico.
Água, sabão, espuma, mãos cuidadosas e um sorriso discreto. Nada além de um ato de ternura destinado a um calendário beneficente. O maior jogador da História era apenas um adolescente em processo de assumir a maioridade.

Mas o tempo e a história têm o estranho hábito de transformar cenas banais em lendas. Porque aquele bebê era Lamine Yamal, o hoje craque do Barcelona e da seleção da Espanha que já carrega a suspeita de suceder o próprio Messi.

Hoje a foto parece escapar da realidade para entrar no território dos mitos. O banho ganha força simbólica de um batismo; a água carrega uma bênção invisível, como se Messi transmitisse um pouco do próprio talento ao menino.

O fato em si também nos diz que não existe ciência capaz de explicar essas coincidências, nem táticas de treino que sugira tal ocorrência. A literatura talvez consiga. Esta crônica de jornal tenta isso. Mas o futebol, certamente o faz.

Neste domingo, o velho mestre e os antigos meninos caminharão para o mesmo gramado, não mais separados pela idade, mas unidos pela grandeza. Messi chega ao entardecer luminoso de uma carreira inesquecível.

Lamine Yamal e seus irmãos geracionais despontam como a aurora de um novo tempo, trazendo nos pés a irreverência de quem ainda acredita que a bola pode desafiar todas as leis da gravidade numa experiência mística.

Quando o árbitro autorizar o início da partida, não será apenas uma final de Copa do Mundo. Será um encontro entre gerações, um diálogo silencioso entre o crepúsculo e o amanhecer, entre quem ensinou o mundo a sonhar e quem agora aprende a sonhar por ele. E, quem sabe, guardar nos pés o legado.

E talvez, por alguns instantes, todos compreendam que o futebol não vive apenas de gols ou troféus. Vive dessas raras coincidências em que o tempo deixa de ser calendário para se tornar pura poesia, uma arte bem antiga.

E a vida, com infinita delicadeza, mostra que certas fotografias nunca foram apenas fotografias. Eram páginas de um destino que esperava, pacientemente, o momento exato de ser lido. De ser reeditado diante do mundo e da história.

Nota
Escolhi o título da crônica ao estilo quinhentista, usado por nossos modernistas mais célebres, para dar uma merecida conotação atemporal, entre o passado e o futuro, a um fato tão mágico como as fotos umbilicais entre os jogadores.

Cabalismo
Há mais coincidências entre Messi e Yamal além do esoterismo na foto do batismo. O garoto do Barcelona usa a camisa 19 que foi de Messi no Barcelona e ambos completaram 19 anos em suas primeiras copas. E o jogo é dia 19.

Senado
O movimento interno no PT em favor do nome de Eraldo Paiva como suplente de Rafael Motta (PDT) já revela desgaste na candidatura de Samanda Alves, a candidata da governadora. A fala de Lula sobre Rafael foi uma pancada.

Senado II
O rompimento entre Fátima Bezerra e Zenaide Maia atingiu o máximo no desmanche dos cargos mútuos no governo estadual e na prefeitura de São Gonçalo, que dispensaram os respectivos indicados, agora ex-parceiros.

Bolsonaro
Fontes da campanha de Flávio Bolsonaro afirmam que se for possível alguma mensagem de Jair Bolsonaro apoiando candidatos, ele vai gravar suas escolhas pedindo votos para uns 20 ou 25 candidatos ao Senado no país.

Debate
No rastro da polêmica do Projeto de Lei da Misoginia, o programa Morning Show, da Jovem Pan, desafiou duas mulheres de visões divergentes sobre o tema para um debate: a analista Jess Peixoto e a deputada Tábata Amaral.

Tarifaço
Trump manteve a taxa de 25% no Brasil para etanol, máquinas agrícolas, açúcar, calçados e couro, tratores e colheitadeiras, pedras ornamentais, produtos químicos e maquinário de construção. Alguns a China taxou 55%.

Medo
Em tempo de Copa do Mundo, a minissérie mexicana Não Tenho Medo, da Netflix, está entre as dez mais assistidas no mundo. É sobre o sumiço de um menino durante os dias em que o país acompanha a Copa do Mundo de 1986.

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