Não é normal ter um jogo de Libertadores na Copa do Mundo. Foi essa a partida vencida pela Argentina, de virada, contra a Inglaterra. Quem ganhou foi quem mais soube tirar o triunfo da alma, entender a importância do que significa uma Copa para seu povo, aquilo que no Brasil ultimamente temos reclamado de nossos jogadores não entenderem.
A Argentina entende.
Compreendeu em 2022, quando a AFA enviou dois aviões com torcedores remunerados para o Qatar. Acontece de novo agora, pela força dos hinchas, que não param de gritar, e pelo poder do time, que tem Messi a ponto de ganhar sua segunda Copa.
João Pereira Coutinho escreveu, com sabedoria, que a Argentina não se explica. É a antítese da Espanha, vencedora de sua semifinal pela previsibilidade; a Argentina é o caos e o imprevisível.
E é Messi.
Que impressionante é Messi aos 39 anos, dando passe para gol aos 47 do segundo tempo.
Futebol olhado, estudado, racional… Neste, Enzo Fernández foi o melhor. Porque esteve na temperatura de um jogo de Copa do Mundo, por jogar no Chelsea, no Campeonato Inglês, e saber que os súditos do rei Charles têm dificuldade de jogar no nível mais alto de calor do jogo.
Fez falta, deu pancada, não levou cartão amarelo, fez o gol do empate a cinco minutos do final.
Com personalidade, carisma, talento… Este é Messi. Já já pelo menos dez biografias ou livros com perfis do jogador mais importante do século 21. Uma mistura do pensamento crítico de Cruyff, do entendimento de jogo de Guardiola, da percepção do campo e da compreensão de sua própria responsabilidade.
Messi não é Pelé, porque é Messi.
Há méritos táticos, como Scaloni escalar seu melhor jogador totalmente fora do combate. Quando a Argentina se defende, são dez jogadores e Messi espalhado, esperando, como último jogador do ataque.
Quando ofende o adversário, enfia cinco jogadores na última linha: Giuliano Simeone, Enzo Fernández, Julián Álvarez, MacAllister e Tagliafico. Messi fica como se fosse um segundo volante, caminha, passeia, olha o jogo e, como um leão na selva, ataca a presa que menos espera.
Ninguém esperava o passe tão perfeito para Lautaro Martínez marcar 2 x 1 aos 47 do segundo tempo.
Voltemos às comparações que não devem existir. Pelé é Deus. Messi, o melhor jogador de seu tempo, o século 21. E será um capricho do destino tirar-lhe o segundo título mundial no domingo, nos arredores de Nova York, no mesmo lugar em que Pelé ajudou a criar o futebol nos Estados Unidos.
A final será a Espanha contra seu alter ego. Porque Messi é isso. A melhor versão do tiki taka, do toque de bola, da troca de passes incessante dos espanhóis, deu-se no Barcelona de 2009 a 2012, quando Messi era ainda mais brilhante e, talvez, menos capaz de ler sua importância para a história do futebol.
A Espanha campeã mundial de 2010 teve o pior ataque de todos os campeões, porque tinha o jeito de jogar do Barça. Mas não tinha Messi. David Villa, seu companheiro a seguir, no Barcelona, foi artilheiro do Mundial com miseráveis cinco gols. Messi já tem oito nesta Copa, 21 em suas seis passagens pelo maior torneio de seleções.
A consagração pode ser no MetLife, palco da final, construído onde era o Giants, do Cosmos, onde Pelé encerrou sua carreira.
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