Com um El Niño de grande intensidade em formação sobre um planeta já superaquecido, a agenda de cidades resilientes deixou de ser pauta ambiental periférica para se tornar questão central para a economia e a sobrevivência urbana.
Há semanas o hemisfério Norte vive um ensaio geral do futuro. A Europa atravessa uma onda de calor sem precedentes, classificada como extraordinária pela OMM (Organização Meteorológica Mundial). Alemanha, França e Reino Unido bateram recordes históricos de aumento da temperatura.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) contabilizou mais de 1.300 mortes em uma semana relacionadas à mudança do clima. Nos EUA, um domo de calor colocou 160 milhões de pessoas sob alerta. Não são episódios isolados: são o retrato de um sistema climático que acumulou energia por décadas e agora a devolve em forma de extremos.
Sobre esse cenário, forma-se um catalisador. A agência climática dos EUA confirmou um novo El Niño no Pacífico, com probabilidade superior a 60% de atingir a categoria “muito forte” neste semestre.
O fenômeno é natural, o que não é natural é a realidade sobre a qual ele atua, uma atmosfera mais quente, cidades mais impermeabilizadas e territórios mais vulneráveis. Apenas três El Niños atingiram a categoria máxima desde 1980, deixando cicatrizes econômicas e perda de vidas.
Para o Brasil, o roteiro é conhecido. Boletim conjunto de órgãos como Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Defesa Civil indica probabilidade acima de 90% de persistência do fenômeno até o início de 2027. A previsão desenha chuvas extremas no sul, seca severa no norte e mais incêndios no eixo central.
Na vida real, isso significa pressão simultânea sobre energia, agricultura, saúde e orçamentos municipais. Gestores públicos sabem que essa conta não chega parcelada.
A diplomacia climática tem respondido no seu ritmo. A COP30, em Belém, colocou o Brasil e a amazônia no centro da agenda global, com o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035. O Instituto Bem Ambiental coordenou o Pavilhão Cidades Resilientes na Blue Zone (Zona Azul), e ali ficou evidente: há uma distância perigosa entre o que se assina nas convenções e o que se executa nos territórios.
É essa distância que a COP31, na Turquia, precisa encurtar, garantindo acesso direto de governos subnacionais aos recursos. Se a COP30 foi a conferência da implementação anunciada, a COP31 será o teste de sua credibilidade.
Contudo nenhuma COP substituirá o dever de casa. Cidade resiliente antecipa riscos em vez de contabilizar vítimas. Trata drenagem sustentável, parques lineares e sistemas de alerta como infraestrutura essencial.
Soluções baseadas na natureza são hoje a engenharia mais custo efetiva para adaptação, valorizando ativos urbanos e atraindo capital. O que falta raramente é diagnóstico, mas o financiamento não chega a quem precisa especialmente aos 70% dos municípios brasileiros com menos de 20 mil habitantes.
Para atacar esse gargalo, lançamos na COP30 a Rede Brasileira de Cidades Resilientes, que começa a operar em 2026 visando apoiar ao menos 300 municípios até 2035, com modelagem de projetos e articulação de financiamento.
A emergência climática exige mudança de escala e velocidade. Planos em gavetas não seguram tragédias. O El Niño que se aproxima não pergunta se estamos prontos.
A agenda climática não será vencida apenas nas gélidas plenárias internacionais. Será decidida nos bairros, nas encostas e nos orçamentos públicos. É lá que o clima cobra resposta. E é lá que precisamos estar.
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