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Construída ao longo de séculos, a Grande Muralha da China foi plantada junto da fronteira norte do antigo império para impedir invasões de outros povos. Não foi infalível, dada a imensidão do território e a má gestão de certas dinastias, mas de um modo geral a estrutura de mais de 20 000 quilômetros de extensão cumpriu o papel de escudo contra inimigos externos. Hoje, a maior obra defensiva já erguida no mundo é apenas um notável ponto turístico. A China moderna não só dispõe de métodos mais sofisticados para se proteger como, ao contrário do passado, quer mais é abrir bem as portas aos estrangeiros, sobretudo nos negócios. Nessa estratégia, cravada em sucessivos planos quinquenais, vem sendo ajudada agora pela Casa Branca: quanto mais ela sacode os eixos de suas relações externas, mais o dragão do Oriente se firma como um parceiro comercial sólido e estável, espalhando influência, dinheiro e produtos planeta afora.

Viajar pela província de Hebei, no interior chinês, é mergulhar de cabeça na estratégia traçada no início deste século pelo governo, e acelerada nos últimos tempos, para blindar a nação das convulsões mundiais à base de uma cadeia de produção interna autossuficiente, resiliente e high-tech. A 250 quilômetros de Pequim, a capital de Hebei, a cidade de Shijiazhuang, um vilarejo no início do século XX, é hoje um polo industrial e logístico vibrante, onde 12 milhões de habitantes vivem em arranha-céus que parecem se multiplicar tão rápido quanto as ambições do país. A metrópole para onde convergem trens de alta velocidade, rotas de carga e cadeias de suprimentos industriais mantém as engrenagens da China em movimento, produzindo de tudo um pouco, e com a elevada eficiência da automatização que permeia os setores mais diversos. O contingente de robôs chineses passa dos 2 milhões na indústria e está perto dos 30 000 na versão humanoide.
De Shijiazhuang saem mercadorias que circulam pela vasta economia nacional e vão abastecer negócios em todos os cantos do planeta. Em outro ponto da província de Hebei, no extremo leste — viagem encurtada por locomotivas que zunem a 380 quilômetros por hora —, o porto de Tangshan opera dezenas de rotas marítimas internacionais. “O objetivo é alcançar mais estabilidade e, ao mesmo tempo, tentar ultrapassar os Estados Unidos como maior economia do mundo”, diz Anthony Saich, professor de relações internacionais da Universidade Harvard.

As cidades em Hebei podem não ter a fama global de Pequim ou Xangai, mas a província virou vitrine para as mudanças que, com a obstinação típica do gigante oriental e um governo autoritário de partido único, que manda e desmanda sem oposição, são estabelecidas a toque de caixa para enfrentar rachaduras nas cadeias produtivas globais. Ocorreu na pandemia, em guerras como na Ucrânia e no Oriente Médio e, principalmente, em meio à eterna tensão diplomática e comercial com o governo de Donald Trump. Enquanto dispara acusações contra seu maior rival de práticas desleais de comércio, indo e voltando com tarifas que não tiram do horizonte uma preocupante guerra comercial, Trump conduz sua política externa à base de reviravoltas repentinas e movimentos bruscos — o exato oposto do colega Xi Jinping, que não perde chance de ressaltar essa diferença. “O presidente americano virou o principal motor do sentimento de incerteza que predomina no palco internacional. Com isso, sem querer, ele ajuda a China”, afirma o historiador Aaron Glasserman, da Universidade da Pensilvânia.
Depois de se tornar a fábrica do mundo, espalhando por toda parte produtos de boa qualidade (embora siga imbatível na confecção de quinquilharias baratas), a China se concentra agora em alcançar um patamar mais alto, adquirindo autonomia e relevância planetária em duas áreas críticas: energia verde e alta tecnologia, tudo movido à base de muita inteligência artificial (IA). Um dos projetos mais emblemáticos da estratégia de Xi é o desenvolvimento coordenado de Pequim, Tianjin e Hebei, uma megarregião conhecida como Jing-Jin-Ji — se uma delas enfrentar algum baque severo, a produção e a logística seguem sem solavancos em outro local logo ali. A iniciativa de 1 trilhão de dólares rendeu, desde seu lançamento em 2014, uma dezena de políticas concentradas em urbanismo, como a revitalização do Rio Hutuo, antes poluído por indústrias pesadas e hoje pontilhado por parques e áreas de lazer, acompanhadas por mais de trinta programas dedicados à inovação em ciência e tecnologia.

Nos arredores de Shijiazhuang, a fazenda inteligente Tongfu integra um dos 35 centros e laboratórios de tecnologia agrícola que desenvolvem algoritmos para monitorar as condições do solo, o crescimento das plantações e suas necessidades hídricas, a partir de dados captados por drones que sobrevoam as áreas cultivadas. “O sistema de irrigação apoiado por inteligência artificial é capaz de alimentar toda a lavoura com uma mistura precisa de nutrientes”, explicou a VEJA Zhou Shijie, diretor da fazenda. A região se beneficia ainda de um incipiente, mas já potente hub de turismo devido à alta concentração de templos históricos recém-revitalizados. “Não faltam oportunidades por aqui”, garante Yang Haojie, 26, que se mudou para Pequim para trabalhar com hotelaria e faz planos para voltar com o namorado à província natal. Não muito longe dali, na cidade de Baoding, o destaque é a pecuária de corte: são mais de 4 milhões de abates ao ano amparados por sistemas inteligentes de monitoramento dos animais, uma cadeia alimentada por centros de armazenamento e distribuição de energia equipados com baterias de lítio do tamanho de casas. “Implementamos esse modelo há dois anos e queremos expandir para outras áreas”, antecipa Jia Jianhua, diretor da Baoding Fengrao Agricultural Technology Co.
A automação e a eficiência no agro são essenciais para colocar comida na mesa de uma população de quase 1,5 bilhão de pessoas, multidão que faz da China o maior importador de produtos agrícolas do mundo, com compras que superam os 200 bilhões de dólares anuais — o Brasil, que responde por 36% desse total, é seu principal fornecedor. Ao lado da agropecuária de ponta, Hebei, no passado conhecida pelas usinas de aço, atualmente exibe um parque que engloba biofarmacêuticos, robótica, equipamentos de energia renovável e componentes aeroespaciais. Em Baoding fica a GWM, concorrente da BYD, cujas vendas de carros elétricos já superam 6 milhões de unidades, com planos de diversificar e crescer. “Nosso novo foco é o hidrogênio, o combustível do futuro”, avisa Andy Zhang, diretor dedicado ao Brasil dentro da montadora. A duas horas de viagem dali, Tangshan, cidade forjada nas minas de carvão e nas siderúrgicas e devastada por um enorme terremoto que ceifou mais de 200 000 vidas em 1976, passa agora por um sismo tecnológico — este, muito bem-vindo. “Minha família trabalhava para produzir aço e eu agora forneço robôs inteligentes a empresas em todo o país”, disse a VEJA Wang Mengzhao, CEO da Baichuan.
Cruza ainda Hebei parte da malha logística da Nova Rota da Seda, projeto que conecta a China ao resto do mundo através de investimentos em infraestrutura. Resultado: o complexo com três portos na Baía de Bohai está ligado a cinquenta terminais em quase 100 países, incluindo o Brasil, para onde há um mês saiu um navio carregado com 400 000 toneladas de minério de ferro. Em terra, a intrincada rede de ferrovias transporta carga valiosa de Shijiazhuang até países como Alemanha, Polônia, Rússia e Cazaquistão. No total, a província movimentou quase 100 bilhões de dólares no ano passado, um crescimento de 11% em relação a 2024.

Eventualmente o dragão mostra as garras de suas pretensões hegemônicas — como no teste, há poucos dias, de um míssil balístico intercontinental disparado de um submarino em pleno Pacífico Sul. Mas, em geral, prefere posar como antídoto a quem já sofreu nas mãos de Trump — e não há falta de candidatos. Desde o início do ano, Xi recebeu o francês Emmanuel Macron, o canadense Mark Carney, o britânico Keir Starmer, o alemão Friedrich Merz e incontáveis outros líderes mundiais em Pequim — entre os quais o próprio Trump. Com sorriso em riste, estendeu o tapete vermelho a todos e ofertou laços igualmente pragmáticos, independentes de matiz ideológico e com menos condições do que as impostas pela Casa Branca. Não por acaso, 2025 terminou com um recorde de exportações para a China, que também registrou superávit comercial global sem precedentes de 1,2 trilhão de dólares. “Somos um porto seguro; injetamos uma valiosa dose de certeza em um mundo cada vez mais incerto”, alfinetou em junho o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, dando o tom da tática local para tirar proveito do sacolejo geopolítico.
Por mais que, do alto de seu poder incontestado e cercado de aliados, consiga conduzir sem oposição as rédeas de seu projeto de fazer da China a maior economia do planeta, Xi tampouco escapa das voltas que o mundo dá. A guerra no Oriente Médio consumiu parte das reservas de petróleo do país que, segundo analistas, são suficientes para não mais que um ano, e o setor de energias renováveis ainda não consegue segurar a onda sozinho. “Por questão de segurança energética, teremos mais duas plantas até o final do ano”, contou a VEJA o diretor da termelétrica Xibaipo, Shi Weigang. A economia, depois de anos de subida meteórica, perdeu impulso no pós-pandemia: o momento é de crescimento mediano para padrões chineses — 5% no ano passado e estimados 4,5% em 2026 — e o consumo desacelerou, especialmente desde a crise no setor imobiliário que endividou as grandes construtoras e promoveu demissões em massa. Assombra ainda o futuro a constatação de que sua imensa população, motor do progresso, não é mais a maior do planeta (foi superada pela Índia) e está encolhendo. Existem problemas, claro, mas não assustam. Como cansou de mostrar nas últimas décadas, superar desafios é uma especialidade da China.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

