Pablo Bermúdez e Valentina Facundo são um casal que sonha em ter “a maior cervejaria independente do país”. Após o toque de campana na Bolsa de Valores da Colômbia, a expectativa é atrair até 1.000 novos sócios para fazer parte desse sonho.
A Birrería Macha resulta de um legado familiar, da resiliência empreendedora e do toque fresco e moderno de dois millennials. Pablo é bisneto de um dos últimos cervejeiros independentes do país antes da industrialização nacional da bebida. A Cervecería Andina encerrou as operações em 1975 e passou a ser apenas mais uma marca de um gigante cervejeiro. Contudo, a tradição permaneceu na família.
Valentina, por sua vez, é uma advogada com alma de empreendedora que havia tentado a sorte em outros negócios sem sucesso, mas com o aprendizado que apenas o erro deixa.
A ideia de uma cervejaria começou a tomar forma quando conheceu Pablo e decidiram iniciar o projeto mais importante, o casamento. Com o propósito claro desde o princípio, ambos viajaram para Barcelona para aprender sobre negócios no meio acadêmico.
Desafios no caminho

Em 2019, os dois começaram a estruturar o projeto que inicialmente se chamaria Birriería Andina, uma homenagem aos antepassados de Pablo. Entretanto, coincidentemente, a Central Cervecera de Colombia relançou a marca Andina no mesmo ano.
“Foi o primeiro tiro no nosso empreendimento”, confessou Valentina, embora reconheça que “também foi uma bênção porque nos devolveu ao tabuleiro. Entendemos que nos amarrar a uma tradição não era realmente aquilo com o que nos conectávamos”.
Dessa experiência nasceu o nome Birrería Macha, inspirado na expressão da região de Cundinamarca e Boyacá “machera”, que expressa valentia. “A valentia de empreender em uma indústria complexa e que já é dominada”, assegura Valentina em entrevista à Forbes Colômbia.
Em dezembro de 2019, tudo ficou pronto para a abertura da primeira loja. A sede na rua 80 com nona funcionou como laboratório de testes e erros. Quando tudo parecia decolar conforme o planejado, surgiu o segundo obstáculo: a pandemia obrigou o fechamento do local, mas também forçou a reformulação do negócio.
Em razão disso, nasceu a segunda linha de negócios, voltada à distribuição. Eles estabeleceram contato com donos de restaurantes, como o Grupo Takami e DLK Restaurantes, para vender os produtos. Atualmente, a marca está presente em mais de 80 restaurantes da capital colombiana.
Expansão financeira e estreia na bolsa

Em 2025, os cônjuges venderam 2.500 milhões de pesos colombianos (cerca de R$ 3,25 milhões). Para este ano, a expectativa está fixada em 4.500 milhões de pesos colombianos (cerca de R$ 5,85 milhões), um crescimento no faturamento que caminhará junto a uma expansão que inclui a abertura de mais os cinco lojas e o fortalecimento do canal de distribuição.
“Chegamos a um ponto em que já sabíamos perfeitamente como íamos crescer. A seguinte pergunta era: e como vamos financiar esta expansão?”, expressou Pablo em conversa com a Forbes Colômbia. Depois de analisar muito o tema, os empresários recorreram ao financiamento coletivo (crowdfunding).
Por meio da a2censo, a plataforma de investimento colaborativo da Bolsa de Valores da Colômbia (bvc), encontraram um mecanismo de Equity que permite a venda de participação acionária da empresa. “O conceito nos conquistou porque gira em torno da comunidade”, expressou Pablo. “Acreditamos que se uma pessoa é sócia ou dona de uma parte da companhia, se comportará como tal: visitará os pontos, convidará amigos e fará parte do crescimento”.
A cervejaria bogotana emitiu 350.000 ações customizadas, agrupadas em 2.000 pacotes de investimento por um valor de 1 milhão de pesos colombianos (cerca de R$ 1.300) cada. O montante equivale a 175 ações por pacote, com um preço por ação de 5.714 pesos colombianos (cerca de R$ 7,42). O esquema permitirá aos investidores acessar 10% de participação na companhia, que está avaliada em 20.000 milhões de pesos colombianos (cerca de R$ 26 milhões).
“A a2censo se consolidou como uma alternativa real de financiamento para empresas em crescimento. Hoje conta com uma comunidade de mais de 15.000 investidores, mais de 220 campanhas bem-sucedidas e cerca de 122.000 milhões de pesos colombianos (cerca de R$ 158,6 milhões) financiados, o que exibe o potencial que o mercado de capitais tem para conectar as PMEs a novas fontes de recursos e acompanhá-as em seus processos de expansão”, assinalou Andrés Restrepo, gerente-geral da Bolsa de Valores da Colômbia.
Cenário competitivo nacional

A Macha atua em um segmento pequeno, porém promissor, da indústria cervejeira. Dados de Rentas Departamentales de Colombia indicam que a participação da cerveja artesanal no país passou de 0,32% em 2020 para 0,45% em 2024. Quanto à produção, enquanto em 2016 se alcançavam 33.000 litros em nível nacional, em 2024 a cifra superou 3.600.000 litros.
Apesar da pequena participação de mercado, um estudo da Kantar exibe que a tendência pode estar em alta, visto que cerca de 40% dos consumidores de cerveja estão se inclinando por opções artesanais.
A empresa compete no mesmo segmento da Bruder, fundada pelos irmãos Héctor e Julián Martínez Borda, empreendimento que também chegou a tocar a campana da bvc por meio da plataforma a2censo. Ambas as cervejarias apostam em algo comum, que é ter um diferencial gastronômico.
Os cervejeiros artesanais buscam estabelecer uma experiência completa por meio do sabor. Enquanto a Macha aposta em um cardápio variado no estilo americano, que já representa mais de 40% das vendas nas lojas, a Bruder exibe uma forte investida no segmento vegetariano e vegano.
A Macha também compete com cervejarias de nicho em Bogotá, como El Mono Bandido, Hanna Hops, Cervecería Turmequé e outras. No entanto, conforme a meta é figurar entre as maiores, precisarão se medir com marcas como Bogotá Beer Company (BBC) e Tres Cordilleras, que já conquistaram espaço no país com cervejas de barril e garrafa.
Além de uma proposta inovadora, espaços modernos e inclusivos com as mulheres (um público frequentemente deixado de lado pela indústria cervejeira) e um cardápio de alta qualidade, a aposta da Macha está concentrada na cerveja. Os empreendedores utilizam quatro tipos de malte e três tipos de lúpulo, todos importados da Alemanha.
Eles são especialistas em lagers artesanais e no momento dispõem de sete sabores entre lagers e ales, todas servidas diretamente do barril e duas em garrafa. Eles detalham, além disso, uma linha LAB, na qual testam novos sabores em lotes pequenos da bebida.
Para o futuro, o casal tem o objetivo firmado em consolidar o negócio, estabelecer uma comunidade de sócios e clientes maior a cada dia e estabelecer uma cultura cervejeira diferente, fresca e com uma harmonização de primeira categoria.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes Colômbia

