A abertura comercial promovida por Javier Milei está reduzindo a vantagem histórica do Brasil no mercado argentino.
Com mais espaço para fornecedores estrangeiros, a China avançou rapidamente em setores como automóveis, máquinas e equipamentos — justamente os segmentos de maior peso nas exportações industriais brasileiras.
Os números mostram essa perda de espaço do Brasil. Em 2025, o país exportou cerca de US$ 18 bilhões para a Argentina. Entre janeiro e junho daquele ano, foram US$ 9,1 bilhões.
No mesmo período de 2026, o valor caiu para US$ 7,3 bilhões, uma retração de aproximadamente 20%.
A Argentina tem um peso estratégico para a indústria brasileira porque é um dos principais destinos de produtos manufaturados, como automóveis, caminhões, autopeças, máquinas, equipamentos e produtos químicos.
A China concentra suas compras no Brasil em commodities, enquanto o país vizinho absorve bens de maior valor agregado. Por isso, a redução das vendas atinge diretamente segmentos importantes da indústria nacional.
O setor automotivo é, sem dúvida, um dos que sentem mais diretamente essa transformação.
Em 2025, cerca de dois terços dos automóveis de passageiros exportados pelo Brasil tiveram a Argentina como destino. Uma parcela relevante das vendas de autopeças também abastece fábricas argentinas, resultado de uma cadeia produtiva integrada ao longo de décadas.
Essa posição privilegiada passou a ser pressionada pela abertura promovida por Milei. Desde que assumiu a Presidência, o governo flexibilizou importações, simplificou o registro de veículos estrangeiros, reduziu exigências regulatórias e autorizou a entrada de até 50 mil veículos elétricos e híbridos sem tarifa de importação em 2026.
A estratégia faz parte de uma agenda mais ampla de inserção internacional.
Milei também aprofundou a aproximação política e comercial com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, preservou uma relação econômica pragmática com a China, hoje um dos principais parceiros da Argentina.
O resultado é um mercado mais aberto e disputado, no qual o Brasil deixou de contar com a mesma vantagem que teve no passado.
As montadoras chinesas aproveitaram esse espaço com rapidez, apoiadas por preços competitivos, grande escala de produção e uma oferta crescente de veículos elétricos e híbridos.
O avanço faz parte de uma estratégia global. No primeiro semestre de 2026, as vendas de automóveis no mercado doméstico chinês caíram 20,4%, enquanto as exportações cresceram 70,6%, para 4,28 milhões de veículos.
Apenas em junho, os embarques ao exterior avançaram 82,1%.
Esse movimento já aparece nas estatísticas argentinas. No primeiro trimestre de 2026, a Argentina importou US$ 3,97 bilhões da China e US$ 3,54 bilhões do Brasil. Em março, os valores ficaram ainda mais próximos: US$ 1,45 bilhão em produtos brasileiros e US$ 1,26 bilhão em mercadorias chinesas.
Ou seja, a China ainda não substituiu completamente o Brasil como principal fornecedor industrial da Argentina, mas reduziu de forma significativa a diferença entre os dois países.
A pressão também cresce dentro da própria Argentina.
Em maio, a Mercedes-Benz Trucks and Buses inaugurou uma fábrica de caminhões e ônibus na província de Buenos Aires, ampliando a produção local em um segmento relevante para as exportações brasileiras.
O impacto da unidade será gradual, mas tende a reduzir parte da demanda por veículos produzidos no Brasil. E diante desse cenário, as montadoras instaladas no país começaram a buscar outros mercados na região.
A Colômbia tornou-se uma das principais alternativas. Em maio de 2025, o país importou US$ 82,1 milhões em automóveis brasileiros, mais que o dobro do registrado no mesmo mês do ano anterior.
Chile, México e Uruguai também ganharam relevância, embora nenhum deles ofereça individualmente a escala da Argentina nem o mesmo grau de integração produtiva.
Efeito macroeconômico
A desaceleração da economia argentina também contribui para a queda das exportações. O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior e 0,7% na comparação com os três meses anteriores.
Em maio, o índice mensal de atividade econômica avançou apenas 0,2%, enquanto a produção industrial recuou 2,8% em abril.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) projeta crescimento de 2,8% para a Argentina neste ano, impulsionado principalmente por energia, mineração e agronegócio.
Esses setores podem sustentar a atividade, mas geram uma demanda menor por bens industriais importados do Brasil.
Ainda que a economia mais fraca ajude a explicar o recuo recente das vendas brasileiras, a mudança na política comercial argentina pode alterar de forma mais duradoura a posição do Brasil naquele mercado.
Durante décadas, a proximidade geográfica, a integração das cadeias produtivas e as vantagens do Mercosul transformaram a Argentina em um destino quase natural para a indústria brasileira.
Esse mercado deixou de ser cativo.
A recuperação da economia argentina pode favorecer as exportações brasileiras, mas dificilmente devolverá ao país a posição confortável do passado.
O Brasil agora disputa espaço com fornecedores globais, especialmente a China, em segmentos nos quais preço, escala, tecnologia e capacidade de inovação terão peso crescente.

