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Andy Burnham já quis levar o Reino Unido de volta à União Europeia, e não faz muito tempo. “Quero que voltemos à UE. Espero que aconteça durante a minha vida”, disse o então prefeito de Manchester na conferência do Partido Trabalhista, no ano passado. Empossado na segunda-feira, 20 de julho, como primeiro-ministro, ele evita repetir a frase. A distância entre o que Burnham acredita e o que pode fazer virou uma das questões centrais da política europeia.
O sétimo premiê britânico em dez anos herdou uma dívida pública de 102,3% do PIB, inflação acima da meta e uma economia que, segundo estudo das universidades Stanford, Nottingham e King’s College, ficou entre 6% e 8% menor do que seria sem a saída do bloco. Burnham promete responder com descentralização, reindustrialização e alívio no custo de vida. Sua primeira medida foi o corte da tributação da energia elétrica. Nos discursos iniciais, a Europa quase não apareceu.
Em Makerfield, distrito que votou dois a um pela saída da UE e que o elegeu deputado em junho, condição para disputar a liderança trabalhista, Burnham aposentou o discurso europeísta e adotou o roteiro oficial do partido: respeito ao referendo de 2016, nada de mercado único ou união aduaneira nesta legislatura.
O sinal de Miliband
Ed Miliband, ex-líder trabalhista que fez campanha pelo Remain em 2016, assumiu as Relações Exteriores prometendo “aprofundar e fortalecer a aliança estratégica” com a UE, embora nunca tenha defendido publicamente a volta ao mercado único. Burnham também transferiu para o Foreign Office parte da estrutura que negocia com Bruxelas, antes alojada no gabinete do premiê. São gestos de quem pretende acelerar.
A cúpula com a UE marcada para esta quarta-feira, 22 de julho, em Bruxelas —seria a segunda desde o brexit, depois da que selou o “reset” de Keir Starmer em maio de 2025— foi adiada com a renúncia do antecessor e remarcada para o fim do ano. Na mesa ficou um pacote negociado, mas não assinado: acordo veterinário para desburocratizar o comércio agroalimentar, conexão entre os mercados de carbono dos dois lados e um esquema de mobilidade para jovens, travado, entre outros pontos, pela cobrança de mensalidades internacionais dos estudantes europeus nas universidades britânicas. Na defesa, discute-se a entrada do Reino Unido no fundo europeu de rearmamento de 150 bilhões de euros. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, telefonou a Burnham e confirmou a intenção de realizar o encontro até dezembro.
O preço de Bruxelas
Negociadores europeus, escaldados pelas oscilações de Londres, passaram a exigir compensação financeira caso um futuro governo britânico abandone os acordos, dispositivo apelidado de “cláusula Farage”, referência a Nigel Farage, líder do Reform UK, que lidera as pesquisas. Para Anand Menon, diretor do instituto UK in a Changing Europe, o bloco percebeu que os trabalhistas estão “desesperados” por relações mais próximas, o que permite elevar o preço.
Reverter o brexit é outra conversa. A opinião pública mudou mais do que Westminster: pesquisas do European Council on Foreign Relations (ECFR) publicadas em junho mostram que 75% dos britânicos querem relação mais próxima com a UE, e a readesão plena já é a opção preferida (33%) quando se pergunta sobre o futuro. Nenhum ator político relevante, contudo, carrega essa bandeira. A CBI, principal entidade empresarial do país, avisou que as empresas não querem “reabrir a batalha do referendo”, e Burnham, escolhido pela bancada trabalhista e sem o teste das urnas nacionais, não tem mandato para tanto. Novo referendo está fora do horizonte.
Na Ucrânia, continuidade explícita. Burnham e Miliband repetiram que o Reino Unido seguirá “ombro a ombro” com Kiev. É a segurança europeia, entre a guerra no leste e a incerteza sobre o guarda-chuva americano, que funciona como motor discreto da reaproximação.
O tamanho real da ambição de Burnham será medido na cúpula do fim do ano.
Fogo amigo em Kiev
A crise da semana em Kiev não veio da frente de batalha. A campanha de drones que isolou a Crimeia ocupada avançava em ritmo inédito quando o presidente Volodimir Zelenski demitiu, em uma reforma ministerial surpresa, o ministro da Defesa, Mikhailo Fedorov, arquiteto dessa estratégia e político em ascensão —sua taxa de confiança saltou de 38% para 50% em seis meses.
A reação veio às ruas: dias de protestos em várias cidades pediram a volta de Fedorov e a saída do comandante em chefe Oleksandr Sirski, general de formação soviética identificado com a velha guarda militar e seu alto custo em vidas. Zelenski cedeu e m parte. Nesta terça-feira (21), entregou o comando das Forças Armadas a Mikhailo Drapatii, 43, respeitado nos quartéis e aliado de Fedorov, sem devolver o ministério ao demitido.
Para Jaroslava Barbieri, pesquisadora do programa de Rússia e Eurásia da Chatham House, o episódio expõe um padrão do presidente: afastar auxiliares que crescem demais. O custo pode aparecer no front —sem Fedorov, as reformas que sustentam o modelo de guerra tecnológico ucraniano correm o risco de parar no meio do caminho. Moscou agradece.
Frase da Semana
A pergunta crucial que me faço é: por que os russos esperariam? Daqui a cinco ou dez anos, a Europa estará de fato mais forte… Então minha resposta é que eles não esperariam
No Radar
O que monitorar até a próxima quarta-feira (29)
- Petróleo em alta — O barril de Brent superou US$ 98 na manhã desta quinta-feira (23), maior nível desde o início de junho, depois que os houthis do Iêmen, aliados do Irã, atacaram dois petroleiros sauditas no mar Vermelho e anunciaram um bloqueio marítimo contra Riad. Com o estreito de Hormuz fechado pelo Irã, a rota do mar Vermelho virou a válvula de escape do petróleo saudita —por ela passam quase 4,9 milhões de barris por dia. A alta acumulada no mês passa de 30%, e o risco agora é a guerra entre EUA e Irã ganhar mais uma frente, no Iêmen.
- Tarifas americanas — Expira nesta sexta-feira (24) a tarifa global de 10% de Donald Trump, imposta por um dispositivo de emergência que dispensa o Congresso por 150 dias. No lugar entra o regime baseado na investigação do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) sobre trabalho forçado: sobretaxa de 10% para 15 parceiros que proíbem ou se comprometeram a proibir a importação de produtos feitos com trabalho forçado, e de 12,5% para outros 45, incluindo China e Brasil. No caso brasileiro, a nova alíquota se soma ao tarifaço de 25% já em vigor —parte das exportações pode chegar a 37,5%.
- Juros do Fed — O Federal Reserve, banco central americano, anuncia sua decisão de juros na quarta-feira (29), primeira de uma leva de reuniões monetárias que também passa pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco do Japão nos dias seguintes.
- Crise em Kiev — Fedorov recusou a oferta de Zelenski e só aceita voltar como ministro da Defesa. Os protestos, que já vão no sétimo dia, têm novo ato marcado para esta sexta-feira (24) em Kiev.
Fora da Pauta
O Louvre reabriu nesta quarta-feira (22) a Galeria de Apolo, nove meses depois do roubo mais cinematográfico de sua história recente: em outubro, ladrões vestidos de operários levaram, em menos de oito minutos e com o museu funcionando, oito joias do Segundo Império avaliadas em 88 milhões de euros —os diamantes da Coroa, ali expostos desde 1887, escaparam.
A visita agora tem outro roteiro. As vitrines foram retiradas, as joias restantes vão para uma sala-cofre sem janelas, e o que se vê é a própria galeria: 61 metros encomendados por Luís 14, decorados por Le Brun e completados por Delacroix, que serviram de modelo para a Galeria dos Espelhos de Versalhes.

