Os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira (22) um acordo considerado histórico de cooperação nuclear para fins civis com a Arábia Saudita. O secretário de Energia americano, Chris Wright, assinou o pacto e um texto separado sobre salvaguardas, juntamente com o ministro de Energia saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman.
“Juntos, esses dois acordos estabelecem a base jurídica para uma parceria multibilionária de várias décadas que promove diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários, incluindo a não proliferação nuclear”, escreveu o Departamento de Energia dos EUA em comunicado.
O anúncio desperta preocupações em Israel de que a iniciativa possa desencadear uma corrida armamentista no Oriente Médio. Também evidencia como os EUA estão traçando seu próprio caminho na região, independentemente de Tel Aviv.
O acordo, divulgado pela primeira vez na terça, poderá permitir que a Arábia Saudita enriqueça seu próprio combustível para reatores nucleares. A possibilidade surpreendeu muitos em Israel, que mantém um programa nuclear militar não declarado.
Embora a Arábia Saudita venha há muito tempo pressionando os EUA por acesso à tecnologia nuclear, o governo de Joe Biden havia condicionado isso, em parte, à disposição saudita de estabelecer relações diplomáticas com Israel —um dos principais objetivos do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.
Em vez disso, o presidente Donald Trump fechou um acordo com os sauditas que parece ignorar Israel por completo. Analistas afirmam que a medida também pode encorajar outros países —incluindo a Turquia, que tem manifestado cada vez mais divergências com Israel— a desenvolver os seus programas de enriquecimento nuclear.
O pacto, com duração prevista de 30 anos, é avaliado em dezenas de bilhões de dólares e dá a empresas americanas papel central no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita, deixando de fora concorrentes estrangeiros de Rússia e China.
A ideia, segundo autoridades do governo Trump ouvidas sob anonimato, é garantir que qualquer enriquecimento ocorra sob supervisão americana em um arranjo que impediria a transferência de tecnologia sensível a Riad e reduziria o risco de desvio do material para fins militares.
Figuras da oposição israelense e ex-autoridades afirmaram que esse é o mais recente sinal de como a influência de seu país em Washington se deteriorou. Netanyahu pressionou Trump para que lançassem juntos um conflito contra o Irã, o que tem sido impopular nos EUA. O republicano chegou a chamar o premiê de louco por sua busca agressiva pela guerra no Líbano contra o Hezbollah, aliado iraniano.
O presidente excluiu o líder israelense das negociações com o Irã para encerrar a guerra. Ele também persuadiu Netanyahu a conter a retaliação a um grande ataque iraniano no mês passado, temendo que uma ofensiva pudesse prejudicar as negociações de paz.
Netanyahu não havia comentado o acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita. Pelo menos um ministro do governo israelense procurou acalmar a preocupação pública, argumentando que o país poderia conviver com um programa nuclear saudita para fins civis.
“Se eles querem isso para fins pacíficos, para necessidades energéticas, podemos lidar com isso”, disse Nir Barkat, ministro da Economia de Israel, em entrevista nesta quarta.
Ele acrescentou que a normalização das relações com a Arábia Saudita “ainda está em pauta” e que Netanyahu e Trump não tomariam medidas que colocassem Tel Aviv em risco.
Israel desfruta há anos de um monopólio sobre armas nucleares na região, embora nunca tenha admitido possuir uma bomba.
O Irã, arquirrival de Israel na região, possui um programa nuclear que Tel Aviv e Washington há muito consideram uma ameaça à segurança nacional, o que inclusive abriu caminho para a guerra em curso.
Líderes da oposição israelense descreveram o acordo entre os EUA e a Arábia Saudita como uma ameaça. Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro, afirmou que “o enriquecimento de material nuclear em território saudita poderia desencadear uma corrida nuclear na região, levando a um colapso total”.
“Todo programa nuclear militar começa com um programa civil”, disse Avigdor Liberman, ex-ministro da Defesa de Israel, pedindo que Tel Aviv exerça pressão sobre o Congresso americano para que rejeite o acordo.
Pessoas do governo Trump ouvidas pela agência Reuters afirmam que o projeto deverá ser votado pelos parlamentares nos próximos dias.
Um acordo nuclear anterior dos EUA, com os Emirados Árabes Unidos, impôs inspeções mais rigorosas e não permitiu que o país enriquecesse seu próprio urânio, limitando seu caminho para a fabricação de uma bomba.
O acordo com a Arábia Saudita parece ser diferente e poderá permitir que o país enriqueça seu próprio combustível, disseram autoridades americanas ouvidas sob anonimato.
Para Israel, muito depende de o acordo conter salvaguardas que possam impedir a Arábia Saudita de usar suas capacidades nucleares para fins militares, disse Michael Herzog, que atuou como embaixador israelense em Washington durante o governo Biden.
Na época, autoridades israelenses discutiram restrições ao programa nuclear saudita como parte de um grande acordo sobre a normalização das relações, acrescentou ele, sem dar mais detalhes.
“O fato de não estar vinculado à normalização nem de não estar claro quais medidas de proteção estão em vigor para impedir que a Arábia Saudita se lance em um programa militar: ambos são motivos de preocupação em Israel”, disse Herzog, agora pesquisador do Instituto de Washington para a Política do Oriente Próximo.
Como parte do acordo nuclear previsto pelo governo Biden, os EUA teriam firmado um tratado formal de defesa com a Arábia Saudita. Autoridades americanas também haviam buscado concessões de Israel aos palestinos —embora muito aquém de um Estado independente— em troca da normalização.
Essas esperanças diminuíram após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e a guerra subsequente na Faixa de Gaza. O clima político em Israel tornou-se hostil à ideia de fazer concessões aos palestinos, enquanto a campanha israelense em Gaza motivou críticas na Arábia Saudita.
“Um acordo nuclear com os EUA deveria ser uma das maiores ‘iscas’” para que a Arábia Saudita estabelecesse laços com Israel, disse Michael Koplow, analista político do Israel Policy Forum, um instituto de pesquisa em Nova York. Na visão de Tel Aviv, “agora Trump deu isso a eles de graça”, afirmou ele.

