Desde que o regime iraniano não caiu depois de EUA e Israel terem lançado as primeiras bombas contra Teerã, em fevereiro, era previsível que o presidente americano entraria em modo TACO —o acrônimo em inglês para “Trump sempre amarela”. A guerra, afinal, é impopular entre os apoiadores do mandatário e provocou um surto inflacionário global.
Uma base apoiadora desmotivada para ir às urnas e eleitores independentes revoltados com a alta de preços são a receita para um fracasso dos republicanos no pleito legislativo de novembro.
Mesmo Donald Trump, com sua miopia estratégica, conseguiu ver isso. Ainda assim, surpreende a escala de concessões feitas aos iranianos pela Casa Branca. É verdade que a reabertura do estreito de Hormuz à navegação, já parcialmente retomada, era o objetivo principal do mandatário neste momento, mas o custo de fazê-lo não foi pequeno.
Em relação ao programa nuclear do regime teocrático, as negociações estão em curso. O americano, contudo, não parece ter obtido nenhum grande benefício.
Os iranianos dizem não ter objetivos militares com o programa, mas essa antiga alegação não os impediu de enriquecer urânio a 60% —não há aplicação civil conhecida que exija enriquecimento superior a 20%.
No que provavelmente é o maior trunfo obtido por Washington, Teerã se comprometeu a diluir no próprio país os cerca de 400 kg de urânio altamente enriquecido que possuem. Mas ainda não há clareza sobre como se dará o processo nem qual será o grau de fiscalização que os inspetores internacionais serão capazes de exercer daqui em diante.
Em contrapartida, os iranianos podem desde já voltar a exportar petróleo e terão, gradualmente, acesso a fundos que estavam congelados pelas sanções.
Fica proibida, por apenas dois meses, a cobrança de pedágio dos navios que passam por Hormuz. Após esse prazo, é possível que haja uma cobrança que inexistia antes da guerra. Está prevista, ainda, a criação de um fundo internacional de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã.
O memorando não trata de limitações ao programa de mísseis, que vêm sendo usados contra Israel e países do golfo Pérsico, nem da interrupção do apoio que Teerã dá ao Hamas, ao Hezbollah e aos houthis.
Ao contrário, os aiatolás obtiveram vitória estratégica importante ao unificar os fronts e fazer com que o fim das operações de Israel contra o Hezbollah, no Líbano, fosse considerado condição para o acordo com os EUA. Em Tel Aviv, o sentimento é de que o país foi abandonado, ou mesmo traído, por Trump.
A “rendição incondicional” que o republicano exigira de Teerã no início da guerra parece, hoje, mais bem descrita como uma capitulação de Washington. Trump tenta vender o memorando de entendimento entre as duas nações como uma vitória, mas fazê-lo requer brigar com a realidade.

