InícioOpiniãoA Seleção Brasileira, os evangélicos e a teologia do placar

A Seleção Brasileira, os evangélicos e a teologia do placar

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Há derrotas que revelam as limitações de um time; outras revelam também os preconceitos da sociedade que o observa. A eliminação do Brasil para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, deveria produzir a conhecida autópsia do nosso futebol: o pênalti desperdiçado, as oportunidades perdidas, os erros de marcação, a incapacidade de transformar domínio em gol, a formação cada vez mais europeizada dos jogadores brasileiros, as escolhas da CBF e tantos outros problemas que pertencem propriamente ao jogo. Havia, portanto, futebol de sobra para explicar a derrota. Ainda assim, nos dias seguintes à eliminação, uma parcela da torcida, das redes sociais e da intelectualidade de ocasião preferiu procurar uma causa religiosa para o fracasso, como se a bola chutada para fora pudesse ser explicada não pela técnica do jogador, mas pela igreja que ele frequenta aos domingos.

A teoria, apresentada com a solenidade própria das grandes descobertas sociológicas, afirma que o Brasil teria deixado de ganhar copas à medida que seus jogadores se tornaram majoritariamente evangélicos. O antigo futebol brasileiro, segundo essa narrativa, seria produto de uma cultura católica, comunitária, festiva, boêmia e aberta ao improviso; o novo futebol, por sua vez, refletiria uma religiosidade protestante supostamente importada, rígida, individualista, moralista e incapaz de produzir a ginga nacional. Daí surgiram frases como “se reza como gringo, joga como gringo”, além de comentários que associavam o desaparecimento do futebol-arte a uma espécie de esterilização evangélica da cultura brasileira. O argumento parece falar sobre tática, mas na verdade constrói uma antropologia religiosa de botequim, na qual o católico é naturalmente alegre e criativo, enquanto o evangélico seria austero, estrangeirado e emocionalmente incapaz de driblar.

É perfeitamente legítimo estudar a presença da religião no futebol. Aliás, seria difícil ignorá-la. Aliás, todo ano, em maio, codirigimos um curso de Direito e Religião na Universidade Autônoma de Madri, que tem uma disciplina exatamente sobre isso. Igrejas desenvolvem trabalhos de capelania, atletas participam de cultos, jogadores falam publicamente sobre conversão, famílias são alcançadas por comunidades religiosas e manifestações de fé aparecem antes, durante e depois das partidas. Então, este fenômeno existe e merece ser compreendido, antes de rechaçado.

Por que uma explicação tão frágil, associando o fracasso da Seleção Brasileira à quantidade de evangélicos no time, encontrou tamanha receptividade?