A recente e ruidosa lavação de roupa suja na franquia Bolsonaro trouxe às telas um espetáculo delicioso de ironia política.
De um lado, a ex-primeira-dama Michelle veio a público expor o enteado, o senador Flávio. Acusou-o de humilhação e desrespeito durante uma ligação motivada por palanques regionais. Do outro, o herdeiro político, ungido para liderar os planos eleitorais do clã, primeiro disse que nada o aborrece. “É dia de jogo”, numa referência à partida do Brasil contra Escócia. Mas aborrece, sim. Flávio e os caciques conservadores sentem na pele o amargor de lidar com uma mulher que se recusa a curvar-se aos mandos da dinastia.
O ponto verdadeiramente sublime desse racha doméstico reside na contradição ideológica. Michelle é a mesma que, em palanque, defende a “submissão saudável” –como se isso fosse possível– da esposa ao marido, professando o papel feminino como o de uma eterna ajudadora do seu esposo, cujo auge do zelo cristão consiste em deixar a comidinha pronta na geladeira antes de viajar.
Michelle pode não compreender ou jamais admitir, mas o fato de ela hoje usufruir de uma voz pública independente, gerir uma robusta estrutura partidária e peitar o enteado na internet é fruto direto do feminismo que ela tanto demoniza.
É graças às conquistas históricas de emancipação que a “ajudadora do marido”, como ela se refere a si mesma, hoje tem o espaço para botar fogo na campanha do próprio enteado. Sem os direitos cavados pelo feminismo, ela estaria recolhida ao silêncio do lar, aceitando a reprimenda masculina.
Nem sempre ela teve esse tamanho. No governo, Michelle manteve uma participação tímida, quase decorativa. Foi somente na liderança do PL Mulher que o partido e o próprio Jair se deram conta da força política que ela carregava: mulher, evangélica, de origem popular e com rejeição menor que a do patriarca.
Esse crescimento incomodou Jair lá atrás. Quando Valdemar Costa Neto começou a desenhar uma agenda da candidata com viagens pelo país, o ex-presidente deu pulos de contrariedade. Sua reação foi de puro ciúme político, sentindo-se desprestigiado.
Dentro do conservadorismo de conveniência, sempre foi improvável que ele apoiasse a ascensão da esposa no lugar de si mesmo ou de um dos filhos homens. Sua inelegibilidade somada à queda de Flávio nas pesquisas pelo envolvimento no escândalo do Banco Master pode impor o pragmatismo da sobrevivência.
Eu já apontava essa engrenagem em 2023, na convenção do PL Mulher, quando Michelle mostrou seu potencial. O ritual começava com o ex-presidente falando apenas de si, seguido por homens do partido, para só então abrir painéis em que mulheres, segundo Michelle, “forjadas por Deus, lindas, fortes e cheirosas”, se revezavam para atacar a esquerda, as feministas e o diabo, num vazio absoluto de propostas públicas. Foi um sucesso. Era um embrião de empacotamento muito mais palatável do bolsonarismo.
O ex-presidente, incapaz de aceitar que sua melhor alternativa podia estar justamente ao seu lado, talvez tenha que engolir agora a ascensão de uma mulher, aquela que sua biologia de botequim chama de fraquejada.
Ainda que seja possível e bastante provável que Jair Bolsonaro tenha aprovado o pronunciamento de Michelle, quem o convenceu a ir nessa direção? Pois é.
Com o marido em prisão domiciliar, Michelle joga o próprio jogo, insubmissa, com uma articulação impressionante. Respaldada por um eleitorado cativo de mulheres evangélicas, ela escolheu o momento cirúrgico para expor as vísceras da família. Ao deixar claro que não aceitará ser empurrada para fora das decisões, mostra que o discurso da submissão era apenas um figurino para consumo externo. Na disputa pelo poder, a ajudadora quer mandar.
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