O Brent fechou a US$ 100,69 por barril em 23 de julho, após ataques dos Houthis a dois petroleiros sauditas ampliarem o risco no Bab el-Mandeb, saída do Mar Vermelho.
No dia seguinte, recuou para US$ 96,78, após fontes ouvidas pela Reuters relatarem uma iniciativa chinesa, canalizada pelo Paquistão, para retomar as negociações entre Estados Unidos e Irã. A alta semanal próxima de 10% também estimulou a realização de lucros. O vaivém resume o novo mercado: cada sinal de trégua derruba as cotações; cada ataque as reconduz à zona de risco.
Grandes acordos do século XX não nasceram somente da exaustão militar. Exigiram lideranças fortes, interlocutores com autoridade e canais nos quais uma concessão não fosse interpretada como fraqueza. Washington e Teerã ainda não reuniram essas condições. O petróleo oscila ao ritmo de uma guerra próxima do quinto mês sem saída política confiável.
O cenário mais provável é um conflito pendular. Navios mudam de rota, seguradoras elevam prêmios e governos recorrem a estoques. Custos extraordinários passam a integrar fretes, combustíveis, inflação e investimentos.
Os US$ 100 não são necessariamente piso, muito menos teto. Uma trégua consistente e a retomada dos fluxos por Hormuz e Bab el-Mandeb provocariam forte recuo. Novos ataques aos estreitos, a terminais ou refinarias podem devolver o Brent aos patamares extremos.
A oferta crescente das Américas e a Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados) limitam uma alta indefinida. Sete integrantes devem discutir, em 2 de agosto, um aumento de cerca de 188 mil barris diários nas cotas de setembro. Elevar metas, porém, não garante entregas enquanto a guerra restringir as exportações do Golfo.
A China será decisiva. Suas importações caíram em junho ao menor nível em quase uma década, e analistas estimam que Pequim tenha recorrido a estoques. O país ainda compra petróleo iraniano com desconto e ampliou as aquisições da Rússia, embora a maior procura tenha reduzido os abatimentos.
Parte das compras poderá se recuperar em agosto e setembro, com cargas que deixaram Hormuz durante a trégua de junho. Quando Pequim decidir recompor reservas, porém, sua demanda poderá encontrar oferta ainda restrita. A China, que hoje amortece os preços, poderá tornar-se fator de alta.
Sua diplomacia segue a mesma lógica. Pequim atua por meio do Paquistão porque a insegurança no Golfo e no Mar Vermelho ameaça seu abastecimento. A mediação decorre mais de interesse econômico do que de altruísmo.
Enquanto o petróleo domina as manchetes, o diesel é o elo mais vulnerável. Ataques ucranianos atingiram refinarias russas e levaram Moscou a proibir exportações até 31 de julho. Entre 1º e 10 de julho, os embarques de diesel caíram para 234 mil barris diários, ante 400 mil em junho e uma média de 817 mil em 2025.
O fim formal da proibição não assegura normalização imediata. A Rússia precisará recompor estoques e reparar refinarias. Em 8 de julho, o prêmio europeu do diesel de baixo teor de enxofre sobre o Brent atingiu o recorde de US$ 60,77 por barril.
Pode haver petróleo disponível e, ainda assim, faltar diesel. O barril pode ser redirecionado; uma refinaria danificada não é reconstruída em poucas semanas.
Para o Brasil, esse descompasso é decisivo. Em abril, o diesel importado respondeu por 24,75% das vendas nacionais. A alta chega ao frete, ao agronegócio, à mineração, à construção e aos alimentos.
Parte do choque já é paga pelo Tesouro. O conjunto de subsídios ao diesel tem custo estimado em R$ 5,5 bilhões por mês. A medida reduz a pressão imediata sobre os preços, mas transforma o risco externo em despesa pública.
A Petrobras pode evitar o repasse de oscilações diárias, mas nenhuma política elimina o custo. Apenas define quando ele será reconhecido e quem o absorverá: consumidor, empresas, estatal ou contribuinte.
O mundo pode se acostumar às notícias do conflito. Não conseguirá se acostumar, sem consequências, à redução dos estoques, à perda de capacidade de refino e ao encarecimento das rotas.
A cotação poderá oscilar ao sabor das tréguas e dos ataques. O custo mais duradouro será o de um conflito que o mercado já não consegue tratar como passageiro.

