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A CazéTVização do mundo é irreversível

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Nossa, que ridículo. Acabei de dar o ponto final numa crônica intitulada “A cazéTVização [ou cazetevização?] do mundo é irreversível”. Outra, não esta. Acredita? Apaguei e agora estou aqui, rindo de mim mesmo. Da minha casmurrice. Desculpe. É que estou velho (48 anos) e nós, velhos, temos a mania de achar que, se o mundo está mudando, e está, é sempre para pior. Que o mundo de hoje não nos quer e encontra formas cada vez mais elaboradas de nos excluir. Tipo a CazéTV, com sua cultura memética, sua estética de reels e sua submissão total à (para mim) indecifrável lógica dos algoritmos.

No entanto, assisto à CazéTV. Torço o nariz, mas assisto. Digo para mim mesmo que é mais fácil, mas ao mesmo tempo reclamo dessas pessoas, desses jovens que querem tudo fácil. Incoerências. Digo mais. Reclamo do que vejo como um improviso que beira o desleixo. Da superficialidade. Da vulgaridade. Da mediocridade. Saio para a janela e observo o mundo. Suspiro. Sou incoerente, repetitivo e velho. Que saudade do Galvão! E me pergunto: neste meu horizonte, quantos estão, neste exato momento, reclamando das propagandas de bets na CazéTV durante a transmissão de Brasil x Japão pela mesma CazéTV?

Argh

Aí me dou conta de que o processo é irreversível. As pessoas (sempre elas) não voltarão a procurar cuidado, profundidade, elegância e excelência na transmissão de uma partida de futebol. Nem no jornalismo. 🙁 Se é que algum dia procuraram e tenho dúvidas. Ora, claro que não procuravam. Que mania a nossa de achar que antes tudo era melhor! Tinha coisas que eram e coisas que não eram. E, se o passado era melhor e mais exigente, nós é que erramos em baixar o sarrafo. Todos os anos um pouquinho mais. Ou menos. Para quê? Para incluir, sim, mas também para aumentar a escala. Para transformar todos em consumidores de uma mesma gororoba sem gosto, barata e sobretudo lucrativa.

Mas tudo tem um lado bom e, apesar do delay, a CazéTVização do mundo também tem. Porque além de criar novas linguagens (argh) e quebrar monopólios narrativos (hmmm), ela nos impõe uma escolha: ou nos convencemos de que não há como fugir desse que é um fenômeno de empobrecimento cultural – e cedemos a ele; ou seguimos convictos de que a excelência exige um esforço raramente recompensado. Pelo menos não nas moedas que o mundo e o presente valorizam hoje, como seguidores, likes, views e a tal da monetização. Mas agora vou ali reescrever a crônica. Esta. “Nossa, que ridículo. (…)”.

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