InícioOpiniãoLeão 14, um equilibrista no Vaticano - 24/05/2026 - Opinião

Leão 14, um equilibrista no Vaticano – 24/05/2026 – Opinião

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A chegada de Robert Francis Prevost, 70, ao papado, em maio do ano passado, foi marcada por inúmeras especulações. Não poderia ser diferente. Eleições ao papado sempre as geram, além de excitação em casas de aposta.

Desde Francisco, que deslocou o olhar do mundo católico para a América Latina, um cardeal não europeu ser eleito à cátedra de Pedro não seria mais novidade. O norte-americano Prevost, nascido num subúrbio de Chicago, desempenhou a maior parte de suas funções eclesiais no Peru, onde viveu por volta de 20 anos.

Seu carisma agostiniano, sua experiência nas periferias das cidades do país e sua inserção na cúria romana, como prefeito da Congregação dos Bispos, fazia dele um forte candidato, apesar de não aparecer nas listas dos papáveis. A escolha pelo Colégio dos Cardeais recaiu sobre Prevost pelo desejo de um perfil capaz de equilibrar as forças internas do mundo católico.

A Igreja se vê assediada por duas correntes culturais identitárias em tensão. De um lado, a progressista, que pressiona por liberalização de costumes e maior participação de leigos e mulheres nas decisões eclesiais. De outro, a conservadora, de raízes intraeclesiais e teológicas, mas historicamente articulada com sensibilidades à direita.

O papado de Francisco (2013-25) atravessou essa erosão cultural de maneira particular, e dela também participou. Suas falas espontâneas, amplificadas pelas redes sociais e pela imprensa, acionavam afetos imediatos e interpretações apressadas.

Para uns, Francisco encarnava um herege comuno-progressista; para outros, um reformador destinado a conduzir a Igreja a uma nova era. Além da espontaneidade de Jorge Mario Bergoglio, morto aos 88 anos, seus gestos e escolhas pastorais e seus movimentos na estrutura eclesiástica, particularmente na cúria romana, provocaram fortes tensões internas: expansão da atuação de leigos e mulheres nos dicastérios, reformas financeiras e esforços em combater a corrupção, entre outros atos que inflamaram o coro dos descontentes.

Prevost herdou, portanto, um ambiente católico volátil e belicoso, em que as “liturgical wars”, que se desenrolam desde o Concílio Vaticano 2º (1962-65), não dão trégua e passaram a se imiscuir com as sensibilidades polarizadas que atravessam o catolicismo.

Em um ano de papado, observa-se, por exemplo, a retomada de certas formalidades papais e litúrgicas, um discurso teológico mais denso (focado especialmente na centralidade de Cristo) e menos improvisado (sempre tem um manuscrito às mãos) —uma postura menos personalista e mais institucional, em ritmo e forma. Suas escolhas parecem evitar choques simbólicos e diminuir a temperatura discursiva, apesar de nas últimas semanas ter se elevado com as tensões com a Casa Branca.

Seria um erro, contudo, lê-lo como um “anti-Francisco” —ou, em sentido inverso, como um mero “Francisco 2º”. Em seu primeiro ano, Leão parece antes empenhado em recompor as condições de governabilidade eclesial, restituindo certa estabilidade simbólica e institucional ao papado, por meio de um estratégico movimento de modulação.


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