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Além do apenas real – Tribuna do Norte

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Redação Tribuna do Norte




00h11

Uma manhã, há anos, ao sair do setor de pessoal da UFRN levando o papel que atestava, definitivamente, a sonhada aposentadoria, confesso que foi como se saísse pela porta dos fundos com vergonha de que notassem o meu alívio. Encerrava, ali, uma ousadia típica da juventude que, ainda na travessia, pesava na consciência sua dúvida depois de 32 anos numa sala de aula: se tinha um saber verdadeiro que convencesse a mim mesmo ser capaz de ensinar alguma coisa a alguém.

Dias depois, juntei, numas dez caixas, todos os livros sobre os mistérios e os enigmas dos grandes teóricos da comunicação, daqui e de longe, e dei a Jácio, do Sebo Cata-Livros, uma figura humana que deixou saudade. Ficaram, lembrando o tempo vivido, os livros de Edgar Morrin e Roland Barthes, mais por afeição. Antes, graças a Deus, da tal Complexidade, uma quase seita que fez de Morin o bruxo de saberes complicados que só aos doutores é possível entender sem espanto.

Lembro que um dia caiu nas mãos um livro coletivo, de exegetas locais, encimados por um ensaio de Morrin. Logo depois, cometi a ousadia de dizer aqui, nesta coluna mundana, que com exceção do ensaio do autor do ‘Método’ nada mais conseguia entender dos teóricos papa-jerimuns. Poucos dias depois, veio a ira flamejante de um doutor desta Aldeia de Felipe Camarão e levei um puxão de orelha, bem recheado de algumas ironias febris na forma de carões gravemente doutorais.

Calei. Pela sincera certeza de que não tinha como contestar. Um cronista, feito nas ruas da vida comum, não saberia sequer rebater. Quem só tem o parco e precário letramento da graduação não pode, como o sapateiro, ir além do sapato. Mas, devo ser sincero, se a sinceridade sempre cabe em qualquer enredo nascido da tessitura da vida besta: li, emocionado, o livro-homenagem de Morin na morte de sua mulher. Ali estava o grande humanista, longe do delírio da Complexidade.

É que nós, filhos humildes do letramento, órfãos do currículo Lattes, pagamos o preço de sermos inservíveis na nossa ignorância. Um soco de um doutor bate como um direto na boca do estômago. Foi assim, por esses dias. Na fortuna crítica da nova edição do ‘Crônica da Banalidade’, de Carlos de Souza, topei com a exegética expressão ‘Paratopia Literária’. Como? Até hoje não consegui saber o que significa. E foi pior: nenhum amigo apenas letrado soube explicar o mistério.

Todas as vezes que por alguma afoiteza tento entender a linguagem do mundo fechado da ensaística engendrada da academia universitária, acabo com a cara contra a parede. Contaria vários casos, se tivesse espaço. O belo texto de Carlão, que tenho e li ainda na primeira edição, me fez sair da leitura vencido pelo novo enigma. Mesmo sabendo que o pedantismo, ao substituir o estilo fluente, não afaga os nossos olhos. Nem deixa neles o sabor do encontro inesquecível e prazeroso.

PALCO

VÍCIO – É sempre assim: os técnicos, agem de boa-fé, não escapam à maldição de justificar os erros apontados pelo jornalismo, em nome da sociedade, quando seria mais fácil reconhecê-los.

ENGORDA – Esta coluna, baseada em fonte técnica, sustentou que o erro não estava na engorda de Ponta Negra, mas na exaustão dos sistemas de drenagem pluvial e do esgotamento sanitário.

AGORA – Diante das indagações encaminhadas pelo MP, as justificativas caíram por terra e a Prefeitura anunciou a construção de três reservatórios submersos para evitar seus alagamentos.

EMENDA – A medida atenua, mas não resolve. A solução definitiva será a ampliação das redes para que suportem os volumes de águas e esgotos. O tempo, nesse caso, não será um bom aliado.

LAGOA – A lagoa do estacionamento do Centro de Convivência, na UFRN, mostra que nos dias de chuva será de inconvivência. Uma aula de como não se deve projetar uma drenagem pluvial.

ALIÁS – Será uma forma de entender as águas que afogam a engorda de Ponta Negra? Se foi a Fundação de Pesquisa da UFRN a instituição contratada, e paga, para fazer a avaliação técnica?

POESIA – De Carlos Drummond de Andrade na atualíssima ‘Elegia 1938’, assim: “Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio…”.

CASTIGO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, vendo os defensores da corrupção como se fossem sócios do Estado: “Ser honesto no Brasil deixou de ser qualidade e virou defeito”.

CAMARIM

ANTOLHOS – Aqui, os saberes populares ou eruditos, acabam sempre levados, por incultura ou desinformação, nos gracejos de uma classe política que perdeu a noção dos bons limites. Agora foi a tentativa, grosseira e irônica, de ridicularizar até o chapéu de couro do vaqueiro nordestino.

SÍMBOLOS – O chapéu, ainda que se chegue a admitir que teria sido uma influência diluída judaico-cristã do Quipá, na verdade, cumpre a função protetora de todo o encouramento do vaqueiro: o gibão, o guarda-peito, as perneiras, as botinas reiúnas e as capas das luvas que protegem as mãos.

FONTE – Quem melhor estudou as vestes do vaqueiro, simbolicamente o cavaleiro de armadura medieval da caatinga, para proteger-se dos espinhos na lida com o gado, foi Oswaldo Lamartine no livro ‘Encouramento e Arreios do Vaqueiro’. O sertão é uma civilização. Há quem não saiba.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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