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A República de Lula e Vorcaro

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Redação Tribuna do Norte




00h13

Em Pindorama, até os escândalos obedecem ao velho princípio da física: corpos ideológicos diferentes sofrem acelerações midiáticas desiguais. Um telefonema de Flávio Bolsonaro pedindo apoio para um filme sobre o pai caiu sobre a República como se fosse a descoberta de um bunker secreto de golpistas debaixo do Congresso.

Jornalistas da grande imprensa entraram em combustão espontânea, analistas políticos passaram a falar em “colapso moral da direita”. E houve até quem decretasse, entre um cafezinho e outro na GloboNews, o encerramento precoce da sucessão presidencial de 2026. A CNN bateu recorde de “breaking news”, os sites e blogs engajados repetiram o termo “urgente”.

O enredo é irresistível: um senador conservador ligando para o banqueiro Daniel Vorcaro atrás de dinheiro para um filme sobre Jair Bolsonaro. Era quase uma pornochanchada cívica: “Os Embalos de um Capitão em Busca de Patrocínio”. O país não suporta tamanho atentado à liturgia republicana.

E aí surgiu Romeu Zema, ligeiro como um fiscal de ética em liquidação eleitoral. Condenou Flávio com a velocidade de quem viu no incêndio alheio a oportunidade de assar seu pão de queijo presidencial.

Mas, dias depois, descobriu-se que o Partido Novo havia recebido uma generosa irrigação financeira oriunda justamente do Banco Master de Daniel Vorcaro. A moralidade seletiva virou investimento de renda variável.

Zema, que posa de monge franciscano da política liberal, acabou descoberto como gerente de conta premium da conveniência. Em Minas, o Novo revelou a mais antiga das tradições nacionais: o velho faro para dinheiro fresco.

Mas o melhor da temporada ainda estava por vir. Porque, em meio ao furacão sobre o telefonema cinematográfico, descobriu-se que Vorcaro frequentava os salões do poder com a naturalidade de um garçom no cafezinho do STF.

Mensagens revelaram proximidade com ministros como Xandão e Toffoli. Havia jantares em Londres, eventos em Nova York, mesas de gala patrocinadas pelo Master e um clima de Davos com jabuticaba institucional.

Nada ilegal comprovado, claro. Em Brasília, ilegalidade é conceito sofisticado; proximidade é só networking republicano com canapé. Aí, apareceu o detalhe que merece algumas semanas de histeria editorial: encontros de Vorcaro com o Stalinácio no Planalto, fora da agenda oficial.

Reuniões discretas, algumas longas, com ministros presentes e até Gabriel Galípolo circulando pelo ambiente antes de assumir o Banco Central. Mas ocorreu um fenômeno da fauna jornalística brasileira: a súbita domesticação da indignação.

O telefonema de Flávio para pedir dinheiro para um filme virou prova do apocalipse democrático. Já encontros reservados entre Lula, ministros e um banqueiro sob investigação passaram a soar como um inocente seminário sobre o sistema financeiro, uma espécie de simpósio técnico e reunião de condomínio monetário.

A diferença de tratamento foi tão delicada quanto um rei Momo dançando num palco de crochê. Imagine o inverso. Se Jair Bolsonaro tivesse recebido um banqueiro quatro vezes fora da agenda, com ministros e futuros dirigentes do BC; o país talvez já estivesse assistindo a uma série documental da Netflix intitulada “O Banqueiro do Capitão”.

Haveria podcasts especiais, episódios do Fantástico em câmera lenta e especialistas falando em “captura do Estado” com a gravidade de quem anuncia o fim da civilização ocidental. Mas como o roteiro envolve Lula, o vocabulário muda.

O que seria conspiração virou articulação institucional. O que seria tráfico de influência tornou-se diálogo democrático. O que seria escândalo converteu-se em governabilidade.

No fim, Daniel Vorcaro emerge menos como personagem e mais como símbolo perfeito da República: o homem que atravessa gabinetes, tribunais, partidos e ideologias como quem passeia por corredores VIP de aeroportos.

Supremo
Lula vai insistir na indicação de Jorge Messias em nova sabatina no Senado. Reclamou que a rejeição na primeira entrevista foi fruto de critério político e não técnico. Ora bolas, o Senado não é um ambiente técnico, e sim político.

Injustiça
A mãe de família Débora Rodrigues dos Santos, ficha limpa, foi condenada a 17 anos de prisão porque escreveu uma frase boba com o seu batom, numa estátua que não tem a menor importância histórica, cultural e arquitetônica.

Injustiça II
O rapper MC Ryan SP, preso pela Polícia Federal como participante de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, apostas ilegais e rifas digitais, voltou para o vidão com um habeas corpus de um tribunal.

Livrarias
A Prefeitura de São Paulo abriu um edital para investir R$ 2 milhões para 40 livrarias da cidade, que receberão R$ 50 mil para auxiliar na manutenção e em atividades de leitura e cultura em geral. Pelos protocolos da Lei Aldir Blanc.

Caipirinha
Após a grandiosa homenagem a Manoel de Brito, com a meladinha da Samanaú, Dadá Costa vai homenagear o boêmio mais longevo do RN, Vicente Ferreira de Morais, lançando a Caipirinha Ferreirinha, na Festa de Sant’Ana.

Copa 26
Lionel Messi, que chegou aos 911 gols no domingo, vai ganhar uma rua com seu nome em New Jersey, na localidade de Berkeley Heights. Será próximo do Patria Station Café, point argentino criado pela bailarina Carolina Zokalski.

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