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Revelações em livro do irmão de Diana recolocam Charles no papel de vilão da história do casal

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Em um dos trechos mais explosivos de Canto do Cisne: Diana, Minha Irmã (Editora Objetiva), o autor, conde Charles Spencer, irmão mais novo da princesa, relata um bate-boca furioso que teve ao telefone, logo depois da trágica morte dela, com o xará Charles, então herdeiro do trono. Tratavam da presença dos filhos William e Harry, com 15 e 12 anos, no funeral — ele era contra, e o pai, a favor (e venceu) — quando, a certa altura, em uma “torrente de raiva”, o príncipe “despejou ao telefone o que sempre vi como seu desprezo reprimido por Diana e seu horror ao fato de o mundo inteiro estar tão chocado. ‘Tenha certeza’, sibilou, ‘de que ela será esquecida logo, logo’”. Ledo engano. Passados quase trinta anos do acidente de carro em Paris em que Diana perdeu a vida aos 36 anos, na madrugada de 31 de agosto de 1997, ela ainda é capaz de reavivar nos súditos o sentimento de indignação pela forma como foi tratada pelo marido e pela família real em geral — um ponto baixíssimo na oscilante reputação da Casa de Windsor.

Historiador formado em Oxford e autor de vários livros, Spencer, em Canto do Cisne, lançado mundialmente na terça-feira 22, resgata com detalhes de quem acompanhou tudo de perto a conturbada trajetória da irmã três anos mais velha, de quem era muito próximo, e reforça com novas tintas a ruína de seu casamento com o agora rei Charles III. Em prosa elegante e apurada, relata que, após o acidente, recebeu uma ligação do próprio Charles. “Ao contrário dos outros que me telefonaram, quase sem condições de articular seu pesar e oferecer ajuda, ele soava euforicamente exultante — como se tivesse ganhado na loteria” — alusão à porta aberta para se casar com a eterna amante Camilla. Diante da repercussão, o Palácio de Buckingham abriu exceção à regra de não reagir nesses casos. “O luto fraternal por vezes obscurece a razão, afeta o julgamento e distorce a memória”, declarou em nota. “É evidente que Spencer detesta Charles e o sentimento é mútuo. A vingança não é um prato que se come frio. Ela fica ainda melhor quando maturada por trinta anos”, ironiza Melanie McDonagh, comentarista de assuntos da realeza do Evening Standard.

Príncipe William, Príncipe Harry e Rei Charles III, visivelmente tristes, caminham em um funeral, todos de terno escuro e gravata preta. William e Harry estão com a cabeça baixa, enquanto Charles olha para frente com expressão séria
TESTEMUNHA – O conde Spencer (à esq.) no cortejo fúnebre de 1997: afinidade com a irmã mais velha (Johnny Eggitt/AFP)

O rei aparece em outros momentos pouco edificantes, como quando o velho conde morreu, em 1992, e Spencer assumiu o título. “Você tem tanta sorte de herdar tão jovem”, teria exclamado um invejoso Charles, reclamando que tinha 43 anos e era tratado pela família “como se fosse criança”. Ou quando, na véspera do enlace, teria dito à noiva que “estava muito feliz em casar com ela, mas não a amava”, e, horror dos horrores, ainda deu uma apertadinha em sua cintura e comentou: “Meio gordinha, não?”. Ou ainda quando, no almoço em que Diana lhe contou que ia se divorciar, o irmão tentou fazê-la mudar de ideia e ouviu: “Meu marido está apaixonado por seu camareiro”, referência a um boato passageiro dos anos 1990. A conversa, diz o conde, não foi adiante. Segundo Spencer, a princesa, desde criança, era impulsiva e tinha gênio forte — uma vez deu um tapa na madrasta, que todos os irmãos detestavam. Ela teria cogitado cancelar o noivado (foi demovida pelo pai) e, em meio a crises depressivas, dirigiu mais de uma vez até os penhascos de Beachy Head, no litoral sul da Inglaterra, pensando em suicídio.

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As revelações do livro complicam os planos de Charles, que passou boa parte das últimas três décadas polindo a própria imagem e a de Camilla, atual rainha consorte. Agora, aos 77 anos e sofrendo de um câncer incurável, tenta usar o tempo que lhe resta para pôr ordem na Casa de Windsor: exilou para o interior o irmão-­problema Andrew, enrolado nos escândalos do amigo corruptor de menores Jeffrey Epstein, e aceitou a volta ao Reino Unido de Harry, o príncipe rebelde, e família. “Na época da morte de Diana, grande parte do público criticou a família real pelo que considerou uma resposta insensível. O livro pode trazer esse sentimento de volta”, opina Sarah Bennett, do departamento de história da Universidade de Nottingham. Diana esquecida? Jamais, Charles.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014

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