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Infraestrutura e equilíbrio fiscal são caminhos para destravar economia do RN

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Redação Tribuna do Norte

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17h00

A duplicação da BR-304 é apontada como uma das prioridades para melhorar a infraestrutura logística e ampliar a competitividade do Rio Grande do Norte. Foto: Adriano Abreu

O próximo governador do Rio Grande do Norte terá que destravar projetos de infraestrutura, melhorar a segurança hídrica em regiões prioritárias, investir na expansão das energias renováveis e, principalmente, enfrentar a grave situação financeira do estado para garantir desenvolvimento econômico nos próximos quatros. A avaliação é de especialistas em economia, que sugerem ao futuro gestor medidas para a superação desses gargalos, dentre as quais, aumento da arrecadação própria, atenção especial a financiamentos e concessões e melhoria da estrutura logística.

Para o economista e superintendente do Conselho Regional de Economia do RN (Corecon-RN), Ricardo Valério, os primeiros desafios que devem ser encarados são a melhoria da infraestrutura logística para o melhor aproveitamento energético, a fim de agregar valor ao setor, com estratégias como a instalação de data centers para mudar a trajetória do estado enquanto mero exportador de commodity.

Ricardo Valério integra, juntamente com Arthur Néo, vice-presidente do Corecon-RN, o Núcleo de Projetos e Diretrizes Econômicas do Setor Público do RN. O órgão lista a existência de cinco gargalos principais para a área. “Além da estrutura para aproveitar o potencial energético, o próximo governo precisa dar continuidade à recuperação da malha viária, com prioridade para a duplicação da BR-304. E é importantíssimo ampliar nossas ferrovias, integrando o RN à Transnordestina. Isso reduzirá o custo de escoamento da produção de minérios, frutas, sal e combustíveis, integrará o interior produtivo, especialmente a região de Mossoró, e aumentará a competitividade do estado para atração de indústrias de grande porte”, avalia o especialista.

Ricardo Valério cita ainda a necessidade de avanços na mobilidade urbana, com a implantação de Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), bem como novos investimentos na estrutura portuária, com uma atenção especial ao Porto-Indústria Verde, de Caiçara do Norte.

Para o professor Renato Carvalho, coordenador de Gestão e Negócios da Universidade Potiguar (UnP) e integrante do Comitê Estadual de Investimentos e Negócios de Impacto Social do RN, segmentos como infraestrutura, ambiente de negócios, qualificação profissional e baixa agregação de valor em algumas das cadeias produtivas são os aspectos mais desafiadores.

“Infraestrutura envolve logística, saneamento, conectividade e integração entre regiões produtoras e mercados. No saneamento, por exemplo, dados referentes a 2024 apontam que apenas 31,41% da população potiguar é atendida por rede coletora de esgoto. Outro desafio é fazer com que setores nos quais o RN já possui vantagens comparativas gerem mais riqueza. Não basta produzir energia, frutas, sal, petróleo, ou receber turistas; precisamos fazer com que fornecedores, serviços, tecnologia, pesquisa e mão de obra qualificada dessas cadeias também se desenvolvam aqui”, avalia.

Os caminhos para resolver os problemas, de acordo com o especialista, envolvem uma estratégia de desenvolvimento de médio e longo prazos, com prioridades claras e continuidade para além dos ciclos de governo. “É necessário simplificar processos, melhorar o ambiente de negócios, infraestrutura e qualificação profissional nas cadeias produtivas locais. Também é fundamental ampliar a articulação entre governo, empresas, universidades, institutos federais, Sistema S e ecossistemas de inovação”, diz Renato Carvalho.

Crise financeira

A situação financeira do estado é, na avaliação dos especialistas, o principal desafio para o próximo governador. O economista e professor da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa), Lucas Godeiro, define o déficit nas contas do RN como um elemento crucial para o norteamento das próximas ações, uma vez que a crise afeta a capacidade de investimentos pelo Executivo. “Quando a situação financeira não vai bem, áreas como saúde, educação e infraestrutura são rapidamente afetadas”, diz.

Ricardo Valério classifica o problema das finanças como “o mais transversal de todos os gargalos”. Ele sugere como medida de enfrentamento o estabelecimento de regras fiscais claras e um planejamento orçamentário orientado a resultados, com revisão permanente da qualidade do gasto. “Também é preciso enfrentar o desequilíbrio previdenciário com gestão, transparência e reformas sustentáveis, e aumentar a arrecadação sem elevar a carga sobre quem já paga”, aponta.

Lucas Godeiro explica que uma estratégia de enfrentamento é o chamado pouso suave. “O governo poderá criar uma regra que permita reajuste salarial dos servidores com um percentual atrelado à arrecadação, ao mesmo tempo em que deve criar um ambiente onde as receitas cresçam mais do que as despesas, inserindo aí mais recursos privados”, sugere.

Já para Renato Carvalho, coordenador de Gestão e Negócios da UnP, o cenário no RN reforça a importância de uma gestão fiscal orientada para o médio e longo prazos, com planejamento, acompanhamento de indicadores e busca permanente por eficiência.

“Entre os caminhos estão o aprimoramento da qualidade do gasto público, a revisão de processos, a transformação digital, a integração de sistemas e o aperfeiçoamento de compras e contratos. Ao mesmo tempo, responsabilidade fiscal e desenvolvimento econômico precisam caminhar juntos. Uma economia mais dinâmica, com ampliação da atividade produtiva, geração de empregos e renda, também contribui para fortalecer a capacidade de arrecadação e investimento do Estado”, analisa.

Potencialidades

Se, de um lado, o próximo governador do RN terá desafios importantes a resolver, por outro, poderá lidar também com um ambiente de potencialidades, que poderão ser ampliadas. Segundo Renato Carvalho, a manutenção do potencial também se configura como um desafio no sentido de transformar as fontes em cadeia produtiva. De acordo com ele, as energias renováveis, a fruticultura e o turismo representam as principais potencialidades do estado hoje na área econômica.

“Nas energias renováveis, por exemplo, quanto maior a presença de fornecedores, tecnologia, pesquisa e profissionais qualificados instalados no RN, maior será a parcela da riqueza que permanecerá no Estado. No turismo, precisamos converter fluxo de visitantes em maior permanência, consumo e distribuição de renda. Na fruticultura e nas demais atividades exportadoras, precisamos buscar agregação de valor, logística eficiente e novos mercados”, detalha.

“Para isso, o Estado precisa oferecer segurança institucional, infraestrutura, qualificação profissional, inovação e previsibilidade para quem deseja investir. O RN não precisa descobrir uma nova vocação econômica; precisa conectar melhor o que já possui, agregar valor e transformar essas vocações em mais produtividade, renda e oportunidades para a população potiguar”, pontua Renato Carvalho.

Na avaliação de Lucas Godeiro, professor da Ufersa, as energias renováveis e o turismo também representam potencialidades importantes para o estado. No mercado de energias, ele sugere a integração com a pesquisa como uma das maneiras de manter o segmento em expansão. “É preciso aumentar as parcerias com universidades para o desenvolvimento de projetos de inovação e para a atração de empresas privadas. É necessário, ainda, expandir os investimentos em parques tecnológicos”, diz o professor.

“É preciso lembrar que o RN receberá um supercomputador. Na Ufersa, está sendo construído o Parque do Semiárido. Esses são fatores que representam avanços, mas ainda assim o estado permanece muito atrás de estados como a Paraíba, onde pesquisadores sequer conseguem pegar novos projetos, porque já atingiram o limite permitido”, complementa Lucas Godeiro.

Em relação ao turismo, atividade já consolidada há anos, ele defende uma maior divulgação das potencialidades do estado, a criação de um calendário de eventos e a interiorização do setor. “Um exemplo que pode servir como pontapé é Patu, na divisa com a Paraíba. O município tem vocação para a prática esportiva, como voo livre, além da parte gastronômica e religiosa, com o Santuário do Lima. Muita gente visita a cidade, mas fica apenas um dia, por conta da estrutura que, apesar da rede de pousadas, pode contar também com serviços de grandes grupos de hotelaria. Para atrair esses investimentos, podem ser concedidas isenções fiscais”, descreve Lucas Godeiro.

O economista Ricardo Valério acrescenta, dentre as potencialidades do estado na área econômica, o setor de petróleo e gás, sal marinho, agronegócio irrigado e mineração. “O próximo governador deve garantir segurança jurídica e previsibilidade regulatória para que os investimentos bilionários em energia e petróleo continuem chegando; capacitar mão de obra para as novas cadeias; e reforçar a conectividade aérea, o saneamento e a qualificação dos destinos turísticos”, detalha o especialista ao falar sobre as iniciativas que o novo gestor deverá adotar.

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