InícioOpiniãoLei Maria da Penha, 20, ainda é regramento em construção - 07/08/2026...

Lei Maria da Penha, 20, ainda é regramento em construção – 07/08/2026 – Opinião

Publicado em

spot_img

A Lei Maria da Penha completa 20 anos como uma das normas mais importantes já criadas no Brasil. Poucas leis mudaram tão profundamente a forma como o país enxerga a violência doméstica. Poucas também seguiram tão vivas, capazes de se atualizar diante de realidades que o texto original não previu. Isso não é fragilidade: é sinal de uma lei viva, construída para proteger, e que segue sendo aperfeiçoada para proteger ainda mais.

Criada para enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher, a lei nasceu de uma realidade que o Brasil demorou a enxergar. Duas décadas depois, os tribunais continuam ampliando esse alcance, respondendo perguntas que o Congresso Nacional ainda não enfrentou com clareza.

A proteção vale quando a agressora também é mulher? Pode alcançar um homem agredido pelo companheiro? Nas relações homoafetivas entre mulheres, o entendimento já está consolidado: o STJ afirma que a proteção depende da condição da vítima e do contexto doméstico, familiar ou afetivo, não do sexo de quem agride. A vulnerabilidade não decorre apenas da força física, mas de uma desigualdade histórica que também pode se reproduzir entre duas mulheres.

Para os casais homoafetivos masculinos, o avanço é mais recente e ainda incompleto. Em 2025, o STF reconheceu a omissão do Congresso e estendeu a proteção da lei a homens gays, travestis e mulheres trans em relações intrafamiliares, em ação da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas e da Aliança Nacional LGBTI. Foi uma vitória histórica.

Mas, diferentemente do que ocorre com as mulheres, não basta a existência do relacionamento: a vítima precisa demonstrar vulnerabilidade ou subalternidade. Em janeiro, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal decidiu que, sem essa prova, o pedido de medidas protetivas deve seguir para a Vara Criminal comum, e não para o Juizado de Violência Doméstica.

Essa diferença me parece o próximo desafio da lei. Um homem agredido por seu companheiro, dentro de casa, também vive controle, medo e dependência emocional — os mesmos elementos que a lei já reconhece como violência doméstica quando a vítima é mulher.

A pergunta é: estamos diante de uma lei voltada a uma categoria específica de vítima ou de um sistema capaz de alcançar relações marcadas por violência, controle e desigualdade de poder?

Como advogado e homem gay, celebro os 20 anos da Lei Maria da Penha sem ressalvas quanto à sua importância. Mas defendo, com a mesma convicção, que ela precisa avançar para acolher plenamente todas as vítimas da violência doméstica, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. A jurisprudência já abriu esse caminho. Agora falta ao Congresso transformar em lei clara aquilo que os tribunais vêm construindo, decisão após decisão.

Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha é motivo de orgulho para o Brasil. Que os próximos anos sejam os da sua expansão plena, para que nenhuma vítima de violência doméstica precise provar que merece proteção.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Veja a matéria completa aqui!

Últimas Notícias

Homem ameaça funcionária de pastelaria com chave de fenda durante assalto, veja vídeo

Um homem de 31 anos foi preso após assaltar uma funcionária de uma pastelaria...

Adolescente mata os avós, invade escola e provoca massacre

Um ataque a tiros em uma escola de Bangkok, capital da Tailândia, terminou em...

Veja Também