Glenn Gould, o grande pianista canadense, tinha um ótimo senso de humor sobre sua obsessão por música com várias vozes entremeadas, especialmente as fugas de Bach. Em 1963, ele escreveu um libreto satírico para quatro vozes e música para cordas em uma fuga rigorosa para o quarteto acompanhante, chamado “Então você quer escrever uma fuga”. As fugas, peças intrincadas como as duas versões de “O Cravo Bem Temperado”, de Bach, são muito difíceis de executar. Gould estava zombando das análises acadêmicas que sugerem que isso deveria ser fácil. Você não precisa estudar ou praticar. Basta seguir as regras e terá uma fuga bem-sucedida.
Não é verdade. O mesmo se pode dizer sobre análise econômica. Encontro com frequência pessoas que querem me falar sobre o que consideram grandes ideias econômicas —as fugas de Bach. Uma delas foi um entusiasta de obras populares de físicos e cientistas da computação… sobre economia. Quando sugeri que suas ideias para prever, criticar e consertar a economia, extraídas daquelas fontes, poderiam se beneficiar da leitura de alguns textos econômicos de verdade, percebi que sua atenção se dispersou. Lição de casa? Ah, não. Ele queria que eu confirmasse sua crença de que pessoas com conhecimentos técnicos como Elon Musk devem ter grandes percepções econômicas. Afinal, em janeiro, Musk tornou-se o primeiro trilionário.
A maioria das pessoas tem a mesma opinião: não é preciso estudar economia para ter uma opinião científica sobre o assunto. Se o patrimônio líquido de Musk é de US$ 1 trilhão, ele deve ser competente para tomar decisões econômicas sábias sobre, por exemplo, quais funcionários do governo federal dos Estados Unidos devem ser sumariamente dispensados. Musk demitiu todos os funcionários recém-promovidos por desempenharem muito bem suas funções. Por lei, durante alguns meses após suas promoções, eles estavam em período de estágio “probatório”. Então, você demite as melhores pessoas. Se é assim que ele administra suas empresas, prevejo que não será um trilionário por muito tempo. Digamos, enquanto durar a bolha da IA.
A atitude parece ser: “Estou em uma economia, então devo saber como ela funciona”. Seria como uma molécula achar que entende de química. Encontro pessoas o tempo todo que querem que eu leia seus livros, ensaios ou longos emails explicando suas ideias sobre este ou aquele fato ou teoria econômica. Quase sempre, suas ideias são como as que qualquer físico tem sobre máquinas de movimento perpétuo. Dinheiro é um grande tema para a atenção de economistas amadores. O ciclo econômico é outro. O caráter exploratório dos mercados é outro.
Acabei de escrever um livro, que será lançado no próximo ano pela editora religiosa Eerdmans, no qual tento fazer com que teólogos pensem seriamente sobre economia e aprendam um pouco. E, como um subtema, tento fazer com que economistas ateus pensem seriamente sobre teologia e aprendam um pouco. Acredito que minhas tentativas fracassarão terrivelmente em ambos os casos.
Se fosse apenas sobre teologia, acho que não deveria me preocupar, exceto pelas almas imortais. Mas, se não especialistas em economia, como Musk ou Trump, estão em posição para usar seu desconhecimento, cuidado.
Não é o que você não sabe que o prejudica. É aquilo que você sabe que não é verdade.
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