Carrère é famoso pelo talento para detectar personagens singulares, contar histórias reais usando as ferramentas da ficção e se colocar de maneira enfática em suas tramas. Em alguns de seus livros, ombreia com o termo da moda: autoficção. Independente de rótulos, tem o que é – ou deveria ser – fundamental para se tratar alguém como grande autor: uma escrita de inegável qualidade.
Jean-Claude Romand está no centro de “O Adversário”. É ele o mentiroso que desperta as perguntas do início do texto e que, desde o início, sabia que a conclusão lógica para tudo o que fez era dar cabo da vida, como nos conta Carrère. Romand, no entanto, fracassou no intento final. Acabou atrás das grades e topou dividir sua perspectiva sobre a própria história com o escritor.
Romand era visto como um homem comum até o dia em que matou a esposa, os dois filhos pequenos e dirigiu à casa dos pais para também assassiná-los. O crime chocou a França. E o que estava por trás da inesperada noite de violência deixou a todos ainda mais estupefatos.
Conforme as investigações avançaram, a figura conhecida de Romand ruiu. Não, ele não era o funcionário da Organização Mundial da Saúde, como dizia e todos acreditavam. Sequer tinha o diploma de medicina. Levava uma vida de fachada.
Saía todos os dias para trabalhar, mas, como não teria o que fazer na OMS, passava as horas em estacionamentos, cafés ou bosques. Quando fingia viajar, comprava bugigangas num canto qualquer e dizia ser lembranças para os filhos vindas de outros países.
Com inegável lábia, pegava dinheiro de pessoas de confiança com a promessa de que iria investir em fundos exclusivos, aos quais teria acesso por conta do cargo que dizia ocupar. Ao ser cobrado da grana e dos rendimentos, dobrava a aposta e contornava a mentira inicial com ainda mais mentiras. Assim levou a vida até que a situação ficasse insustentável.

