Reportagem desta Folha (“Meninas de 10 a 14 anos cuidam mais da casa e da família do que homens, diz estudo”, 8/3) revelou uma realidade que deveria preocupar todo o país. Ainda na adolescência, quase 80% das brasileiras já acumulam estudos com trabalho doméstico ou atividades de cuidado. Aos 25 anos, mais da metade concilia trabalho remunerado com as responsabilidades da casa, e uma parcela expressiva enfrenta simultaneamente três jornadas.
Os números mostram que a desigualdade entre homens e mulheres continua começando muito cedo. Mas eles também suscitam uma pergunta menos óbvia: quem será capaz de romper esse ciclo? Minha resposta é a “geração sanduíche”.
As mulheres que hoje têm entre 40 e 60 anos ocupam uma posição singular na história brasileira. Foram educadas em uma sociedade que ainda naturalizava a divisão desigual das responsabilidades domésticas, mas construíram suas trajetórias em um país que ampliou, como nunca antes, o acesso feminino à educação, ao mercado de trabalho e aos espaços de liderança.
São mulheres que conhecem, por experiência própria, o peso das antigas regras e, ao mesmo tempo, participaram da construção das novas. Poucas gerações reuniram tamanho repertório para compreender as dificuldades do passado e identificar os caminhos do futuro.
A expressão “geração sanduíche” costuma ser associada à responsabilidade simultânea pelos filhos e pelos pais idosos. Mas sua importância vai muito além dessa condição. Pela primeira vez, uma geração feminina ocupa, ao mesmo tempo, posições de influência nas empresas, nas universidades, nas organizações públicas e dentro das próprias famílias.
Essa dupla presença amplia sua capacidade de transformação.
Como líderes, podem criar ambientes de trabalho mais compatíveis com a vida familiar, valorizando modelos de gestão que compreendam que o cuidado não é uma responsabilidade exclusivamente feminina.
Como mães, avós, professoras e referências para as novas gerações, podem formar meninos e meninas sob uma lógica completamente diferente daquela que receberam. A igualdade entre homens e mulheres não será consolidada apenas por leis ou campanhas. Ela será construída, diariamente, dentro de casa, na maneira como filhos aprendem a compartilhar responsabilidades, reconhecer o trabalho invisível e compreender que cuidar da família é um compromisso de todos.
Essa talvez seja a maior contribuição histórica da “geração sanduíche”: transformar cultura e não apenas ocupar espaços.
Naturalmente, essa posição tem um custo elevado. São mulheres que acumulam múltiplos papéis, enfrentam as exigências profissionais, acompanham o crescimento dos filhos, oferecem apoio aos pais idosos e ainda convivem com uma sociedade que frequentemente lhes cobra juventude permanente e desempenho impecável.
O risco do esgotamento é real. Mas também é real a oportunidade histórica que carregam.
Cada geração recebe uma missão. As mulheres que vieram antes abriram portas fundamentais para a educação, para o mercado de trabalho e para a conquista de direitos. A “geração sanduíche” recebeu tarefa diferente: consolidar essas conquistas e transformá-las em uma nova cultura.
Talvez nenhuma geração de mulheres tenha convivido com tantas responsabilidades. Mas nenhuma também reuniu condições tão favoráveis para alterar definitivamente as regras do jogo.
Se conseguir transformar a experiência acumulada em mudança cultural, deixará como legado algo muito maior do que o próprio sucesso profissional. Entregará às próximas gerações um país em que a dupla jornada feminina deixe de ser uma expectativa social e passe a ser apenas uma lembrança de um tempo que ficou para trás.
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