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Em Tristão e Isolda, estrídulos, névoas, lábia e orgasmos – 24/07/2026 – Mario Sergio Conti

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Foi dias depois de Odin, o chefão da mitologia nórdica, ter criado o mundo, que a Ópera da Bastilha encenou, em 1998, “Tristão e Isolda“, após décadas sem que a dupla dinâmica passasse por Paris. Críticos e jornais fizeram picadinho da encenação.

O Libération disse que a montagem era inepta e a música deveria “ser escutada de olhos fechados”. Talvez seja por isso que gostei. Estava empoleirado na galeria e, embotado pelas brumas de Valhalla, pouco vi do palco. Sou o que Nietzsche disse de Wagner: um diletante.

“‘Tristão e Isolda’ é o Everest dos maestros”, disse Roberto Minczuk, acrescentando que dois deles infartaram ao reger a ópera de Wagner, ora sob sua batuta no Theatro Municipal. Ele não só escapou do colapso cardíaco, como, proclama o diletante —agora sentado na sétima fileira— arrancou da orquestra um som superior ao da execução na Bastilha.

Há duas passagens no segundo ato em que a montagem paulistana se excede em excelência. Tristão e Isolda estão entregues aos prazeres do “coitus ininterruptus” e, fora de cena, Brangäne, a serva de madame, adverte: “cuidado!” Aflita pelo perigo de um flagra, mas com uma ponta de inveja do prazer dos patrões, a voz límpida —de Luisa Francesconi— augura: vai dar merda!

Merda dá. Mas antes os funestos amantes se entregaram à sequência plutônica da noite de estreia no Municipal. Isolda —a soprano Anne Marie Kremer— e Tristão —o tenor Simon O’Neill— representaram com indústria e estrídulo aquele que é considerado um clímax do sexo cantado.

A cena em que o casal se assanha mexe com os brios dos operários da baixaria operística. É dar uma passeada na internet e descobrir que se conta, a sério, quantas vezes Isolda e Tristão gozaram na noite em que o rei Marke, o corno da Cornualha, caçava. Foram três, dizem uns; outros falam em sete; e há os que chamam o deleitoso embate de “orgasmão”.

Está certo que os assanhados tomaram um drinque suspeito antes, mas naqueles tempos heroicos não havia Viagra nem incremento hormonal.

Wagner sabia bem o que fazia. Depois de compor o segundo ato, escreveu: “‘Tristão está ficando terrível! Receio que a ópera seja proibida, a menos que, com uma encenação ruim, a coisa vire mera paródia. As boas encenações vão deixar as pessoas malucas.”

Wagner estava apaixonado por Mathilde Wesendonck, casada com um milionário que o patrocinava. Leu o libreto recém-terminado para a esposa, Mathilde e o marido, o maestro Hans Von Bullow e a mulher. Nos termos de Victor Borge, um regente ferino, “leu-o para a esposa, sua amante, o marido da amante, sua futura amante e o marido da futura amante. Todos gostaram”. Além de libertino, um Mandrake.

A pianista Clara Schumann não se deixou levar pela lábia. Ao ver a ópera, disse: “Ver e ouvir um amor tão doido, numa noite em que todo senso de decência é violado, e pelo qual não só o público, mas até os músicos parecem encantados: eis a coisa mais triste que já experimentei na minha vida artística.”

Para Theodor Adorno, o ápice de “Tristão e Isolda” está no terceiro ato, quando a trompa sobe “acima da fronteira que separa o nada de alguma coisa, e capta o eco da melancólica canção do pastor enquanto Tristão se agita —essa passagem perdurará enquanto as experiências fundamentais da era burguesa ainda puderem ser sentidas pelos seres humanos”.

“Tristão e Isolda” está cheio de leitmotiv, os motivos-condutores associados a personagens ou sentimentos. Para Adorno, os leitmotiv anteciparam fórmulas da indústria cultural: dão uma cutucada no público que não gosta de música e o orientam ao que deve sentir. Seriam como jingles publicitários, conduzem quem os ouve a determinadas mercadorias.

No Municipal, Isolda deu duas vezes leves cotoveladas em Brangäne, para chamar-lhe atenção do que estava dizendo. Seria um leitmotiv visual?

A prefeitura mudou há pouco a gerência do Municipal porque quer encenações estética e politicamente conservadoras. Importou-se então uma montagem espanhola, e o palco foi invadido por névoas de gelo seco e videografismos que remetem a imagens passadas e estereotipadas.

E lá está, ocupando dois terços do palco, subindo e descendo, uma colossal coroa do rei Marke —personagem menor que, como o franzino prefeito paulistano, reinará por um tempo no Municipal.

Apesar de tantas interpretações de “Tristão e Isolda”, dá sempre para acrescentar outra. Fica aqui uma contribuição.


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