Redação Tribuna do Norte
•
•
17h00


Dom Heitor de Araújo Sales completa 100 anos na próxima quarta-feira (29) com as memórias de uma trajetória marcada pelo sacerdócio e pelo serviço à Igreja do Rio Grande do Norte. Arcebispo emérito de Natal, ele revisita os caminhos iniciados em São José de Mipibu, os 76 anos de ministério e os momentos que ajudaram a construir seu legado.
Antes mesmo de Dom Heitor começar a contar suas histórias, a própria casa já apresenta parte da trajetória dele. Pelas paredes, estão espalhadas fotografias da juventude, homenagens, registros de encontros com autoridades religiosas, como o Papa Francisco, e imagens de casamentos celebrados ao longo do sacerdócio.
“Eu procuro ser do modo como Deus queira que eu seja. O tempo que eu fui simplesmente um presbítero, um padre, e depois fui nomeado bispo ou arcebispo, eu sempre penso em ser o que Deus deseja ou quer que eu seja. É isso que eu procuro”, conta ao falar sobre si mesmo.
Dom Heitor Sales mantém uma rotina que ainda desafia o tempo. O dia começa cedo, com as orações em sua pequena capela em casa e as páginas de algum livro.
Entre os compromissos diários, há um programa que ele mais gosta de fazer: sair para tomar café com os irmãos da Igreja. O hábito se tornou tão presente que já virou motivo de negociação com a cuidadora, que tenta convencê-lo a diminuir as saídas pela saúde.
Sentado na poltrona da sala, Dom Heitor interrompe a conversa sempre que alguém chega. Faz questão de se levantar, apertar a mão e receber cada visitante com atenção. E não são poucos. Ainda recebe casais para aconselhamento, fiéis que querem se confessar e até amigos, como as visitas frequentes de Dom Matias Patrício de Macêdo.
As primeiras memórias dessa caminhada levam Dom Heitor de volta a São José de Mipibu, onde nasceu. Segundo ele, suas melhores lembranças são da cidade, que relembra com carinho.
Foi também dentro de casa que surgiu uma das maiores inspirações: o irmão Dom Eugênio Sales, que foi uma referência de vida sacerdotal para o irmão mais novo. “Eu achava que ele era uma pessoa que merecia ser imitado”, relembra Dom Heitor.
A vocação para a vida sacerdotal surgiu em uma conversa com Dom Eugênio. “Meu irmão me perguntou, no passeio que fizemos, o que eu queria ser. Ele já era sacerdote. Olhava para ele como talvez o modelo de uma coisa que eu deveria ser também”, revela.
Ao receber o chamado para a vida sacerdotal, Dom Heitor passou a ter uma missão: “A preocupação mais importante é ser alguém que lutasse para fazer, ser o que Deus desejava que eu fosse”.
Entre as lembranças mais afetivas da trajetória de Dom Heitor estão os momentos vividos ao lado da mãe. Ao recordar o período em que ela já estava doente, ele fala da presença constante que ainda guarda na memória e destaca a influência que teve em sua formação religiosa. “Esses momentos com minha mãe foram momentos muito fortes, principalmente religiosos, porque ela ensinava a gente a ser bom cristão”, relembra.
Entre os momentos mais marcantes da trajetória de Dom Heitor Sales está a participação no processo de beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu.
Dom Heitor esteve em Roma durante a solenidade em que os mártires foram proclamados bem-aventurados. “Isso foi um marco muito profundo, porque foram tantos irmãos nossos, tanto em Cunhaú como em Uruaçu, e eu vivi bastante isso também”, relembra.
Entre as realizações da trajetória como bispo e arcebispo, Dom Heitor destaca menos as estruturas físicas e mais as pessoas que ajudou a formar. “Foi o momento em que eu realizava, por exemplo, a ordenação de um padre. Era um momento muito importante: eu, já como bispo, consagrar alguém que queria ser sacerdote”, conta.
Entre as marcas deixadas por Dom Heitor à frente da Arquidiocese de Natal estão a revitalização do Seminário de São Pedro, na Avenida Campos Sales, e a retomada do Diaconato Permanente.
Mas, ao falar sobre a Igreja que ajudou a construir, ele reforça que o maior legado não está apenas nos prédios, mas na continuidade da fé. “O que eu achei mais importante é a Igreja viva. Então, o seminário para a formação de novos sacerdotes significava a continuidade da Igreja”, conta, orgulhoso.
Durante sua atuação à frente da Arquidiocese de Natal, Dom Heitor promoveu mudanças na organização da Igreja local, com a criação dos Vicariatos Episcopais e a adoção de um modelo de governo mais participativo.
Também fortaleceu a formação do clero, com retiros internacionais para sacerdotes, criou pastorais como a da Comunicação e do Dízimo e acompanhou a expansão da Arquidiocese, com a criação de 15 novas paróquias e a ordenação de 44 padres.
“Unidade, paz e alegria”
Para Dom Heitor, manter a fé viva passa pela autenticidade da vida cristã e pelo compromisso com os ensinamentos de Deus. Segundo ele, é preciso buscar uma relação verdadeira com a fé e tentar viver de acordo com aquilo que a pessoa acredita ser o chamado.
Para viver bem, Dom Heitor escolhe três palavras que considera fundamentais e que, segundo ele, estão presentes na Bíblia: unidade, paz e alegria.
A unidade, explica, está relacionada ao pedido de Jesus aos apóstolos durante a Última Ceia, quando reforçou a importância de permanecerem juntos.
A paz, segundo ele, aparece na passagem da ressurreição, quando Cristo se apresenta aos discípulos dizendo: “A paz esteja com vocês”.
Já a alegria representa, para Dom Heitor, a forma como o cristão deve viver a própria fé. Para ele, a religião não deve ser vista como um peso, mas como uma fonte de esperança e disposição para fazer o bem. “O cristão deve ser uma pessoa alegre, porque ele é um filho de Deus”, afirma.
A longevidade, para Dom Heitor, não tem uma fórmula pronta. Ele admite que já ouviu muitas vezes a pergunta sobre o segredo para chegar aos 100 anos, mas diz não ter uma resposta definitiva.
A explicação que encontra está na busca por uma vida com propósito: “Se a gente procura fazer o que a gente pensa que Deus espera de nós, nos dando tantos anos para viver, acho que me sinto feliz quando posso fazer alguma coisa que pense que Deus quer”.
Com muitos anos de experiência, Dom Heitor afirma se sentir motivado no cotidiano. As cuidadoras confirmam a motivação, afirmando que ele é muito ativo. “No dia a dia me move que eu seja alguém que Deus criou, que Deus fez viver e que eu devo corresponder ao plano de Deus na minha vida, o máximo que eu puder fazer”, disse Dom Heitor.
Para ele, viver bem significa colocar os próprios dias a serviço de algo maior. É essa ideia que também orienta o conselho que costuma repetir: não desperdiçar a vida.
Programação
Às 17h, será celebrada uma missa em ação de graças na Catedral Metropolitana de Natal. Durante a celebração, será lançado o livro “Na unidade, na paz, na alegria – Dom Heitor 100 anos”, que reúne a trajetória do arcebispo emérito.
A programação segue com o lançamento do documentário biográfico sobre Dom Heitor Sales, em uma sessão para convidados no Midway Mall.

