InícioMundoVenezuela: Adolescentes buscam sozinhos o corpo da mãe - 25/07/2026 - Mundo

Venezuela: Adolescentes buscam sozinhos o corpo da mãe – 25/07/2026 – Mundo

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Ele havia quebrado concreto, serrado vergalhões e seguido em frente apesar do calor, da poeira e da exaustão, perseverando enquanto homens muito maiores e mais fortes desabavam.

Agora, no 25º dia de sua busca, Winder Delfín, 17, finalmente havia encontrado o que procurava. No fundo do túnel que cavara com seu irmão Deivi, 15, seu pai e seu padrasto, Winder conseguia distinguir o vestido florido que pertencia à sua avó.

Ele esperava que sua mãe e seu irmãozinho estivessem logo adiante. “Há corpos por perto”, disse ele, olhando para o pai da borda do túnel.

Um mês depois de dois terremotos históricos devastarem a Venezuela, o estado mais atingido do país, La Guaira, continua sendo cenário de buscas extenuantes e minuciosas pelos mortos. Do amanhecer até bem depois do anoitecer, milhares de sobreviventes se espalham pelos restos das residências que um dia ficavam a poucos quarteirões da praia, escalando as montanhas de escombros com picaretas e marretas, movidos por um desejo obsessivo de recuperar os corpos das pessoas que amavam.

Oficialmente, o número de mortos é de 5.398, mas o governo diz que pode chegar a 10 mil.

As mãos dos que buscam sangram. A poeira reveste seus pulmões e avermelha seus olhos. À noite, alguns dormem sobre os destroços, cansados demais para ir a qualquer outro lugar. Vivem de sanduíches doados, copinhos plásticos de café e da esperança de que possam de alguma forma se curar através de seus esforços, de que aqueles levados tão subitamente possam descansar quando forem encontrados.

Os menores são crianças ou adolescentes cujos pais não têm forças para mantê-los afastados, ou que perderam seus pais. Os sobreviventes os chamam de toupeiras porque conseguem se enfiar em espaços minúsculos, iluminando o caminho com celulares e lanternas de cabeça e reportando aos adultos lá em cima.

Em outro lugar, esse trabalho poderia ser feito por profissionais. Mas o Estado venezuelano, com suas capacidades debilitadas por anos de má gestão, corrupção e sanções dos EUA, deixou a tarefa de recuperar corpos em grande parte para sobreviventes civis e voluntários.

Em La Guaira, os soldados são mais visíveis marchando de um lado para o outro pelas ruas, às vezes varrendo a poeira das estradas e fazendo fila para receber comida trazida por grupos de ajuda humanitária estrangeiros.

Winder e seu irmão Deivi moravam com a avó Carmen, 69, a mãe Yusmani, 35, e o irmão Moissés, 10, em um apartamento no primeiro andar de um prédio de habitação popular de 12 andares. Yusmani tinha acabado de começar um novo emprego em um clube de praia próximo, um local de férias para venezuelanos mais ricos.

Em 24 de junho, o dia em que os terremotos atingiram a região, os meninos mais velhos tinham ido brincar em um parque aquático. No caminho de volta, contaram, a terra começou a tremer e eles se abraçaram e fecharam os olhos. Quando os abriram, o prédio deles havia desaparecido.

Passaram aquela noite resgatando sobreviventes e desde então têm cavado os escombros. O pai deles, Deivid Delfín, 44, barbeiro, tinha ficado com a mãe deles por 14 anos. O padrasto, Giovanni Berroterán, 50, tinha ficado com ela por quatro. Agora, os homens trabalhavam juntos para encontrar a mulher que ambos haviam amado.

Deivid Delfín disse saber que o trabalho era perigoso para seus filhos, mas que não sabia como mantê-los afastados daquilo. Sentia-se perdido, afirmou, quando eles choravam e pediam que ele explicasse o que havia acontecido.

“Não sou mais um menino”, disse Deivi um dia.

Levou três semanas para martelar e perfurar os 12 andares que haviam desabado um sobre o outro.

Os meninos, seus pais e dois tios haviam cavado três buracos diferentes tentando localizar o apartamento 107. Suas ferramentas: uma pá, picareta, marreta, britadeira, serra e até uma faca de cozinha, todas compartilhadas entre os vizinhos.

No 24º dia, Deivi abriu um quarto buraco e chegou à sala de estar. Ao anoitecer, estavam retirando um par de shorts pertencente a Moissés e uma pequena camiseta branca. Delfín, sentado na borda do buraco no crepúsculo, encostou-a no rosto e chorou.

No 25º dia, um grupo de voluntários cristãos chegou da cidade vizinha de Valencia, vestindo camisetas que diziam “amor ao próximo”.

Carlos Lizarraga, um dos voluntários, apontou para os dois pais dos meninos. “Aconteceu com ele”, disse, “mas poderia acontecer comigo”.

Soldados passaram marchando com suas vassouras. Uma psicóloga voluntária, Obtavio Guerra, estava na borda do prédio desabado. Ela havia aconselhado cerca de 50 sobreviventes nos últimos dias, explicou.

“A realidade emocional ainda não veio à tona”, disse, chamando a busca pelos corpos de uma forma de as pessoas se manterem ocupadas, distraídas. “Está adormecida, como uma onda que pode chegar a qualquer momento.”

Era meio-dia quando encontraram o primeiro corpo e Winder, deitado de barriga para baixo no buraco, reconheceu o vestido florido de sua avó. Por horas tentaram alargar o túnel para poder extraí-la. Os homens golpeavam o concreto com martelos e picaretas; os meninos carregavam os pedaços quebrados para fora.

Acima deles, uma escavadeira arranhava a lateral do prédio.

A família implorou ao operador que não perturbasse seu trabalho —queriam retirar os corpos eles mesmos.

Finalmente, dois voluntários vestiram macacões plásticos brancos, luvas azuis e máscaras. Apenas um tinha capacete. Desceram pelo buraco, rastejaram pelo túnel e colocaram o corpo de Carmen em um saco preto.

Mais voluntários carregaram o saco montanha de escombros abaixo. A família se reuniu. Os meninos ficaram nos braços do pai e choraram enquanto um dos socorristas cristãos fazia uma oração.

“Amanhã estaremos de volta”, disse Lizarraga, “porque há mais dois corpos”.

Uma caminhonete da polícia parou e os policiais colocaram o corpo de Carmen na caçamba. O pai e o padrasto subiram também, partindo para identificar o corpo.

Levou mais 24 horas para localizar Yusmani e Moissés, que estavam na cozinha. Delfín desmaiou antes de serem retirados e teve que se afastar. Mas Winder continuou trabalhando noite adentro, desenrolando um saco para o corpo de sua mãe e libertando-a do lugar onde havia morrido.

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