Falar de Luiz Carlos Barreto apenas como um dos maiores produtores do cinema brasileiro talvez seja pouco. Barretão, que morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos, pertenceu a uma geração que não apenas fez filmes, mas precisou praticamente inventar maneiras de manter o cinema brasileiro vivo, atravessando crises econômicas, mudanças políticas, censura, transformações tecnológicas e períodos em que produzir no país parecia quase um ato de resistência.
Sua participação na história começa muito antes dos grandes sucessos de bilheteria. Fotojornalista de formação, Barreto ajudou a transformar a própria imagem do cinema brasileiro ao assumir a fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Ao abandonar filtros que suavizavam a intensa luz nordestina, criou uma fotografia dura, contrastada e profundamente ligada à paisagem retratada pelo filme. Depois trabalharia também em Terra em Transe, de Glauber Rocha, tornando-se uma figura central daquela geração do Cinema Novo.
Mas foi como produtor que sua influência se tornou ainda maior. Ao lado de Lucy Barreto, fundou a L.C. Barreto e esteve ligado a filmes como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Bye Bye Brasil, Memórias do Cárcere e, sobretudo, Dona Flor e Seus Dois Maridos, fenômeno que levou quase 11 milhões de espectadores aos cinemas. Sua convicção era rara e continua atual: qualidade artística e sucesso popular não precisavam ser inimigos.
Barretão atravessou o Cinema Novo, os anos da Embrafilme, a crise provocada pelo desmonte do cinema nacional e a retomada dos anos 1990. Mais do que sobreviver a todas essas fases, ajudou a construí-las.
Seu maior legado talvez esteja justamente aí. Luiz Carlos Barreto não deixou apenas uma coleção extraordinária de filmes. Deixou uma maneira de pensar o cinema brasileiro como arte, indústria, memória e identidade de um país que precisava — e ainda precisa — se enxergar na própria tela.

