InícioOpiniãoAntes só do que mal acompanhada - 20/07/2026 - Mirian Goldenberg

Antes só do que mal acompanhada – 20/07/2026 – Mirian Goldenberg

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Uma mulher almoça em um restaurante em São Paulo. Na outra mesa, a esposa diz ao marido: “Coitada, comendo sozinha”.

Duas senhoras viajam de excursão para Foz do Iguaçu (PR). Uma moça diz para o noivo: “Que triste. Elas devem ser viúvas, tão sozinhas”.

Três amigas conversam animadamente em um bar no Rio de Janeiro. Uma jovem diz para o namorado: “Acho deprimente ver mulher sozinha enchendo a cara”.

Faça a experiência: basta colocar um único homem entre essas mulheres e não se ouve mais qualquer comentário sobre o fato de elas estarem sozinhas.

Essas cenas são da minha coluna “Sozinhas”, publicada na Folha em 10 de abril de 2012.

Na coluna, uma arquiteta de 42 anos revelou um fenômeno que continua atual: viver só ainda é sinônimo de fracasso feminino.

“Adoro sair sozinha. Mas é muito difícil enfrentar o preconceito, especialmente de algumas mulheres. Só faço isso quando viajo para o exterior. Em qualquer país europeu, vejo muitas mulheres sozinhas nos teatros, cinemas, restaurantes. É completamente normal”.

Uma psicóloga de 50 anos também chamou a atenção para o preconceito entre as próprias mulheres.

“Por que uma mulher sozinha incomoda tanto? Não são os homens que me olham com pena. São as mulheres. Acho que elas se sentem ameaçadas ou até me invejam por eu não precisar de um homem para me divertir. O que mais incomoda é a minha coragem e a minha autonomia”.

Por fim, uma nutricionista de 37 anos enfatizou a liberdade de viver só em uma cultura que ainda enxerga o marido como um verdadeiro capital simbólico.

“Sabe aquela peça? Sou infeliz, mas tenho marido? Muitas mulheres escolhem a infelicidade. Antes só do que mal acompanhada não é mais uma defesa contra o estigma da mulher fracassada. É a afirmação da minha autonomia”.

Os dados da Pnad (IBGE) de 2012 mostraram que 12% (6,9 milhões) das casas pesquisadas eram ocupadas apenas por um morador. Hoje, esse percentual chega a 19,7%.

Em 2023, as mulheres representavam 45,1% das pessoas em domicílios unipessoais, enquanto os homens eram 54,9%. Há, porém, uma diferença interessante: entre os homens que moram sozinhos, 56,4% têm entre 30 e 59 anos. Já entre as mulheres que moram sozinhas, 55% têm 60 anos ou mais.

Muitas pesquisas retratam uma nova realidade: além do aumento de mulheres que moram sozinhas, cresce também o número de mulheres que escolhem morar com outras mulheres. O que mudou não foi apenas o número de mulheres que moram sozinhas ou com outras mulheres, mas o significado dessa escolha.

As mulheres de mais de 60 anos que pesquisei apontam que o objetivo não é apenas cuidar umas das outras, mas envelhecer juntas preservando a autonomia. Para elas, os maiores benefícios são a diminuição da solidão, o sentimento de segurança, o apoio mútuo e a possibilidade de continuar tomando as próprias decisões. Essa escolha vai muito além de razões econômicas: elas valorizam a amizade, o apoio cotidiano, a proteção e a qualidade de vida.

Com filhos ou sem filhos, elas revelaram que estão construindo outra forma de família: uma “família escolhida”. Para elas, os vínculos mais importantes não são os de sangue ou os do casamento, mas os de amizade. Com as amigas, elas buscam preservar a autonomia e, ao mesmo tempo, contar com a segurança emocional.

Por que, após tantos avanços na condição feminina, a escolha de morar sozinha ou de construir uma “família escolhida” ainda incomoda tanto?


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