Todos os dias recebo mensagens com histórias estranhas. Coleciono todas. O que mais mandam é caso de cemitério, e o engraçado é que são coisas semelhantes acontecendo em lugares distintos do mundo.
A do portão, por exemplo. Uma senhora estava no cemitério, com um terço de madeira nas mãos, saindo de um enterro, nos passos lentos da tristeza de quem acabou de ver a morte. Ou sentir seu cheiro.
É isso que acontece quando alguém morre, esse encontro, a lembrança de que o dia final chegará para todos nós. A pena por quem foi, o medo de ir.
Talvez ela já estivesse tentando mudar o rumo dos pensamentos, abanando a mão como quem espanta moscas, quando outra senhora chegou perto dela e disse, quase sussurrando: quem passar primeiro por este portão depois de mim vai morrer em dois dias.
Foi o suficiente para uma confusão começar, no boca a boca do recado. Ela apanhou o terço caído no chão e foi avisando aos parentes e conhecidos, antes que fosse tarde. Cadê a mensageira que disse isso? Sumiu. Se sumiu, era visagem, o que deixa o comunicado com caráter oficial. Veio do além, e quem volta de lá sabe o que não sabemos, é bom respeitar.
Era final de tarde, o sol foi embora também, não quis se meter. E aquele povo todo, trancado no cemitério, ia fazer o quê?
Os parentes começaram a trazer comida e água para passar pelo portão. Por sorte, era sábado. O domingo ainda dava pra suportar, mas segunda é dia de lida. Dizer o que para o patrão?
Nem precisava dizer, a cidade era pequena e a notícia se espalhou. Foi todo mundo para a frente do cemitério, chorar pelos parentes vivos que poderiam morrer, rir da desgraça alheia, tentar dissuadir da crença. Quem era a tal bruxa, afinal?
A parentada levou colchões e redes, quem não aguentou a vigília se arrumou entre as lápides, pendurou rede de uma árvore para um túmulo, dos males o menor. A decisão entre viver e morrer estava no gesto de ir embora, passar o portão, testar a sorte e o valor da profecia maldita. Pelas contas que fizeram, eram 17 pessoas dentro do cemitério e umas 300, indo e vindo, do lado de fora.
Durou nove dias, o acampamento. Primeiro o medo, o susto, a dúvida. Depois foram acostumando.
Aproveitaram para limpar as sepulturas, varrer, tirar lixo, arrumar as plantas e flores, polir os metais, os vidros das fotos, raspar as ceras de velas, nove dias de faxina geral no pequeno cemitério, no alto da colina.
Achavam que a mulher poderia voltar e desfazer o engodo. O padre veio, benzeu, exorcizou, mas a coragem foi pouca para entrar no cemitério, fez tudo pelo lado de fora.
No nono dia, a coragem veio de uma das mulheres. Quem pode mais do que Deus?, ela gritou. Saiu andando pra vida, não quis nem saber. Abriu o portão, passou e deixou lá escancarado.
Pode ter sido em português, espanhol, alemão, romeno. No cemitério de qualquer lugar onde as pessoas ainda acreditem na vida. Pois saíram todos, atrás dela, esperando para descobrir se a profecia se cumpriria. Todos na dúvida, no medo, na curiosidade. Inclusive eu e você.
A partir desta quarta-feira (22), as colunas de Socorro Acioli serão publicadas quinzenalmente na versão impressa da Folha, no caderno Cotidiano.
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