Nunca na história das Copas do Mundo, política, negócios e futebol se entrelaçaram da forma como aconteceu na edição encerrada no último domingo (19), com a vitória da seleção espanhola, por 1 a 0, sobre a da Argentina.
Pela primeira vez, três países —Estados Unidos, México e Canadá— receberam a competição, que contou, também de modo inédito, com a participação de 48 equipes.
A expansão reflete um processo de globalização incentivado pela Fifa, que estuda um aumento para 64 países em 2030, ano do centenário das Copas.
A primeira competição ocorreu no Uruguai, com 13 nações. Em 1954, consolidou-se o formato com 16 participantes, mantido até 1978. Em 1982, passou-se a 24 seleções, número que subiu para 32 entre 1998 e 2022.
À ampliação territorial e numérica correspondeu, nesta Copa, um notável fortalecimento dos negócios. Desde o aumento de vendas e preços de ingressos ao vasto leque de patrocinadores e anunciantes presentes nos locais de disputa e nas transmissões por diversas plataformas.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, estimou, em 2022, US$ 286 bilhões ao ano —à época, R$ 1,45 trilhão. Também foi a primeira vez que a Globo não exibiu todos os jogos, o que deu espaço ao crescimento recorde à CazéTV, um canal do Youtube.
A pressão financeira, reforçada, entre outros fatores, pela avalanche de sites de apostas, gerou intervenção na própria dinâmica do esporte: as chamadas pausas para hidratação, que dividiram as partidas em quatro tempos.
O sistema, adotado no basquete profissional dos EUA, favorece as inserções de publicidade, mas levanta dúvidas referentes ao tradicional andamento do jogo.
Além das duas novas pausas, o intervalo de 15 minutos entre o primeiro e o segundo tempo foi ampliado, para dar lugar a shows musicais, como acontece no Super Bowl, a disputa pelo título do futebol americano.
Viu-se também um tipo de intervenção política personalista, promovida pelo presidente Donald Trump, com aquiescência de Infantino —já antes do evento, a Fifa havia bajulado o republicano com um insólito prêmio da paz.
A pedido de Trump, a entidade chegou ao cúmulo de anular a aplicação da regra da suspensão automática por uma partida de um jogador americano anteriormente expulso de campo.
O governo americano também impediu a delegação iraniana de pernoitar em território dos EUA, promoveu revistas constrangedoras em jogadores e barrou a entrada de um árbitro da Somália.
Do ponto de vista futebolístico, parece prevalecer a avaliação de que a Copa foi atraente e bem disputada. Se a quantidade maior de seleções propiciou alguns embates desinteressantes, houve também encontros surpreendentes e emocionantes, que projetaram países distantes dos holofotes internacionais, caso emblemático da seleção de Cabo Verde.

