Não é mais novidade para ninguém, pelo menos para os habitantes de boa parte da tríplice fronteira, a arquirrivalidade entre Brasil e Argentina no futebol, marcada pela provocação de ambas as partes e pelas piadas nacionalistas amplamente difundidas que extrapolam as fronteiras do esporte. Eis que, nesta recém-encerrada Copa do Mundo de 2026 —em que pesou o clima de beligerância—, esse antagonismo escalou graus exorbitantes e chegou a um patamar no qual a tradicional disputa migrou para o terreno da política de inimizade.
Uma pergunta que não quer calar: para além dos motivos aparentes, que se apresentaram com o verniz da evidência (“a Fifa favorece a Argentina”), do dado incontestável (“Maradona fez gol com a mão”), do engajamento político e antirracista (“Messi não se posiciona politicamente”; “A Argentina é racista”), quais outros fatores devem entrar em campo para nos ajudar a compreender por que chegamos a esse ponto de interdição discursiva em relação à seleção do país vizinho?
Antes que o caro leitor nos pergunte —”Mas esse rol não é suficiente para riscar a Argentina do mapa?”—, já respondemos antecipadamente que não, pois estas “ocorrências”, que, sim, deveriam indignar a todos, não são obra exclusiva do time de Messi. Não se trata de defender a ideia superada de que futebol e política não se misturam. Defendemos justamente o contrário.
Quer parecer que não nos damos conta de que há uma Argentina que chega às telas durante a Copa do Mundo e outra que permanece fora do enquadramento convencional. A primeira veste a camisa albiceleste, alimenta antigos estereótipos; a segunda, reflexo de nós mesmos, é negra, indígena, periférica e luta incansavelmente contra o apagamento de sua própria história, contra a ausência de corpos negros nas diversas esferas —além do futebol. Entre uma e outra, aquele imaginário colonial continua organizando a forma como brasileiros e argentinos se veem.
Pouca gente se recorda de que Brasil e Argentina viveram, na primeira década dos anos 2000, um momento de convergência estratégica. A reorganização da televisão pública argentina por meio da Lei de Meios e da Televisión Digital Abierta (TDA), assim como a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), não foram iniciativas isoladas. Ambas dialogavam com um mesmo projeto de integração latino-americana impulsionado pela criação da TeleSur, em 2005.
Essa aproximação talvez revele algo que o futebol frequentemente encobre: Brasil e Argentina produziram muito mais intercâmbios do que rivalidades. Talvez por isso nos incomode tanto perceber que, enquanto políticas de Estado tentavam construir instrumentos comuns para fortalecer uma identidade latino-americana, nossos imaginários continuavam sendo produzidos por narrativas estereotipadas que insistiam em nos apresentar como adversários históricos.
A Argentina não branca permanece atuante nos bairros populares, na cultura afro-platina, na religiosidade afrodiaspórica, na música, na organização política e na produção intelectual.
Rechaçar a síntese que o imaginário colonial nos oferece sobre a Argentina e o Brasil, por meio da política de inimizade, exige disposição para a escuta de outras narrativas que ultrapassam a Copa do Mundo e jogam um jogo muito diferente daquele que foi imposto por um quadro comum de referência que não só repeliu corpos negros dos campos mas chutou para bem longe as possibilidades de reconciliação com as “ancestralidades desconfortáveis”, negras e indígenas, tanto lá quanto cá.
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