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Tarifaço exige menos ideologia e mais negociação técnica | Blogs | CNN Brasil

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A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos alcançará cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O valor corresponde a 18% das vendas ao mercado norte-americano, tomando 2024 como referência. Madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar estão entre os grupos mais atingidos. O impacto ameaça empresas, empregos e regiões dependentes daquele mercado.

O conflito será conduzido em duas arenas.

A primeira é ideológica e já foi incorporada à campanha presidencial. Governo e oposição disputam a responsabilidade pela crise e utilizam o episódio para discutir soberania, alinhamento internacional e interferência externa.

Nos Estados Unidos, a agenda America First também dá conteúdo político às críticas dirigidas ao Pix, às plataformas digitais, às decisões judiciais e às políticas ambientais brasileiras.

Para os integrantes do governo federal, será necessário impedir que a linguagem eleitoral determine o tom da negociação. Pronunciamentos destinados ao público interno podem reduzir a margem de manobra de diplomatas e técnicos.

A negociação comercial precisa buscar outro resultado: retirar produtos da lista tarifária, preservar contratos e reduzir prejuízos.

A via técnica parece ser a única realmente disponível. E o aviso final do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) mostra como essa estratégia pode funcionar.

O órgão recebeu mais de 360 manifestações escritas e ouviu 77 testemunhas. Parte delas demonstrou que determinadas tarifas provocariam falta de insumos, elevação de custos ou desorganização de cadeias produtivas nos próprios Estados Unidos.

O processo ajudou a preservar mais de 1.600 códigos tarifários. As exceções decorreram da constatação de que a cobrança também prejudicaria empresas e consumidores norte-americanos.

Essa é a principal abertura disponível.

O Brasil precisa organizar a negociação por setores e produtos. Cada cadeia deverá identificar seus importadores, demonstrar a dificuldade de substituir a oferta brasileira e calcular os efeitos da tarifa sobre custos, preços, contratos e empregos nos Estados Unidos.

A pressão mais eficaz poderá vir de fabricantes, distribuidores e associações empresariais norte-americanas. São esses agentes que conseguem mostrar a Washington como a tarifa transfere custos para sua própria economia.

Há espaço para compromissos específicos.

No setor sucroenergético, o interesse dos Estados Unidos em ampliar as vendas de etanol ao Brasil pode ser associado à abertura de seu mercado ao açúcar brasileiro.

No comércio digital, é possível discutir transparência e previsibilidade regulatória sem enfraquecer o Pix.

Na pauta ambiental, rastreabilidade e comprovação de origem legal podem proteger exportadores regulares.

Porém, existem limites institucionais. Decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) não podem ser oferecidas como contrapartidas comerciais. Reconhecer essa fronteira permite concentrar esforços em acesso a mercados, propriedade intelectual, fiscalização e segurança regulatória.

A reciprocidade, entendida como resposta de força equivalente, não constitui uma alternativa realista. A diferença de tamanho, poder econômico e capacidade de retaliação entre Brasil e Estados Unidos torna uma escalada comercial muito mais onerosa para o lado brasileiro.

Em vez de buscar uma simetria inexistente, o país deve concentrar sua estratégia na negociação técnica, na mobilização das empresas norte-americanas afetadas e na construção de concessões setoriais capazes de produzir resultados concretos.

Há posições ideológicas no governo norte-americano que dificilmente serão alteradas por argumentos brasileiros. Entrar nessa seara seria inócuo.

Os negociadores precisam mostrar onde a tarifa prejudica interesses dos próprios Estados Unidos e quais concessões recíprocas podem reduzir esses danos.

O palanque continuará procurando culpados. A mesa técnica deverá identificar interesses comuns e prejuízos compartilhados.

É nesse terreno menos ruidoso que o Brasil poderá ampliar as exceções e começar a desmontar o tarifaço.

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