O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, bloqueou as promoções de sete oficiais superiores da Marinha —cinco dos quais são mulheres ou não brancos— ao posto de almirante de duas estrelas, segundo afirmaram autoridades e ex-funcionários do setor.
Essa medida, considerada incomum, significa que, pela primeira vez em mais de uma década, provavelmente nenhuma oficial mulher da Marinha na ativa será promovida a almirante este ano, afirmaram as autoridades.
A lista inicial era composta por 22 oficiais selecionados por uma comissão de promoções formada por almirantes de alta patente. A comissão concluiu que os indicados para o posto de almirante de duas estrelas estavam entre os oficiais com melhor desempenho da Marinha ao longo de carreiras que se estendem por mais de 25 anos.
Entre as promoções removidas está a da contra-almirante Amy Bauernschmidt, que havia sido escolhida em 2020 para ser a primeira mulher a comandar a tripulação de um dos 11 porta-aviões movidos a energia nuclear da Marinha, disseram as autoridades, que falaram sob condição de anonimato.
Hegseth não apresentou uma justificativa para retirar Bauernschmidt ou as outras oficiais da lista de promoções. Mas ele tem afirmado nos últimos anos que as Forças Armadas têm se concentrado demais em promover pessoas não brancas e mulheres em detrimento dos homens brancos.
“As promoções por ação afirmativa dispararam, sendo as ‘primeiras vezes’ o fator mais importante no preenchimento de novos comandos”, escreveu Hegseth nas páginas iniciais de seu livro de 2024, “The War on Warriors”. “Não vamos parar até que mulheres negras, lésbicas e transgênero comandem tudo!”
O livro de Hegseth não apresentou estatísticas para respaldar suas afirmações. As mulheres representam 21% do efetivo ativo da Marinha, mas constituem apenas cerca de 7% dos almirantes em exercício.
Hegseth demitiu ou afastou mais de 20 generais e almirantes, incluindo Lisa Franchetti, a primeira mulher a liderar a Marinha, que deixou o cargo no ano passado. Ele também retirou cerca de 40 oficiais superiores, selecionados por comissões compostas por pares, das listas de promoção.
Mais da metade das pessoas demitidas ou retiradas por Hegseth das listas de promoção eram mulheres ou negros. Pelo menos uma oficial da reserva da Marinha foi indicada para promoção ao posto de uma estrela neste verão.
Uma vez indicados, os oficiais devem ser confirmados pelo Senado. Em uma carta datada de 6 de julho, sete senadores democratas reclamaram que as medidas de Hegseth pareciam desconsiderar as conquistas dos oficiais removidos e iam contra “a ideia de um Exército apolítico”.
Elas também pareciam violar a política do Pentágono, que estabelece que o secretário de Defesa só deve retirar oficiais da lista por falhas morais, mentais, físicas ou profissionais que levantem dúvidas sobre a capacidade de liderança de um oficial.
Na carta, os senadores solicitaram a Hegseth um levantamento demográfico dos oficiais retirados das listas de promoção, as bases legais que ele estava utilizando para riscar os nomes e sua justificativa para a remoção.
O Pentágono se recusou a responder a uma série de perguntas sobre a decisão de Hegseth de retirar oficiais das listas de promoção. Em vez disso, um porta-voz do Pentágono acusou o jornal The New York Times de ter “uma obsessão tóxica por raça e identidade”.
A Marinha se recusou a comentar.
Antes de ser indicado para liderar o Pentágono, Hegseth classificou como um erro a decisão de 2015 do governo de Barack Obama de permitir que mulheres servissem em unidades de combate terrestre.
“Isso não nos tornou mais eficazes”, disse Hegseth em um podcast em novembro de 2024. “Isso não nos tornou mais letais.”
Alguns meses depois, durante a audiência de confirmação de Hegseth no Senado, ele recuou dessa posição, sustentando que as mulheres deveriam ter permissão para servir em unidades de combate terrestre desde que fossem aprovadas nos mesmos testes físicos que os homens. “Quando falo sobre essa questão, não se trata das capacidades de homens e mulheres”, disse ele. “Trata-se de padrões.”
Em dezembro passado, o Pentágono iniciou uma análise de seis meses sobre a presença de mulheres em unidades de combate terrestre para garantir que ela não prejudicasse a eficácia das formações. A análise foi noticiada anteriormente pela rádio NPR.
A maioria dos cargos de combate da Marinha está aberta às mulheres desde 1993, quando o Congresso suspendeu as proibições ao serviço de mulheres em aeronaves e navios de combate.
Em todas as Forças Armadas, os responsáveis pelas relações públicas receberam ordens discretas para revisar as contas de mídia social de suas unidades e excluir postagens que se refiram à “primeira mulher” ou ao “primeiro afro-americano” a alcançar um marco militar.
Um esforço semelhante foi feito em favor de Bauernschmidt. Vários oficiais superiores da Marinha, incluindo pelo menos um almirante de quatro estrelas, intercederam para atestar sua competência e caráter.
Mas isso não foi suficiente para salvar sua indicação. Alguns de seus colegas oficiais, que foram retirados das listas de promoção por Hegseth, optaram por se aposentar. Bauernschmidt disse aos colegas que planeja continuar lutando pela promoção que conquistou, afirmou uma autoridade do Ministério da Defesa.
À medida que a notícia do destino de Bauernschmidt se espalhava pela frota, alguns oficiais atuais e ex-oficiais da Marinha refletiram sobre a rapidez com que as oportunidades para as mulheres marinheiras parecem ter diminuído apenas no último ano.
Em 1989, a Marinha selecionou sua primeira oficial mulher para comandar um navio da força logística de combate. Para marcar a ocasião, o vice-almirante Jeremy M. Boorda, então chefe de pessoal da Marinha, enviou uma carta a todas as 184 oficiais de guerra de superfície da Marinha.
“Aguardo ansiosamente o dia, que não deve demorar, em que isso deixará de ser um evento especial”, escreveu ele. “Estamos chegando lá, e isso se deve aos seus esforços, à sua dedicação e à sua capacidade de cumprir a missão. Tenho orgulho de vocês.”

