Iván Cepeda, candidato derrotado nas eleições da Colômbia, reafirmou à Folha que vai recorrer à desobediência civil para se opor ao presidente eleito, Abelardo de la Espriella, diante do que considera irregularidades ao longo do pleito, incluindo a dupla cidadania do adversário.
Os planos foram anunciados na semana passada, quando o senador exigiu que o ultradireitista renunciasse à sua nacionalidade americana e esclarecesse se já trabalhou para agências de inteligência dos Estados Unidos (algo que nunca foi comprovado).
“Espriella já enfrenta graves obstáculos para ser um presidente que defenda nossa soberania nacional. E, por isso, afirmamos que vamos recorrer à desobediência civil”, afirmou o candidato do Pacto Histórico ao jornal.
A impressão, no entanto, é de que a estratégia já vinha sendo preparada. Cepeda quebrou a tradição de reconhecer o vencedor com base na apuração inicial, que sai no mesmo dia da votação, e chegou a acusar uma suposta irregularidade em 800 mil votos, além de denunciar o apoio do presidente americano, Donald Trump, ao presidente eleito.
O ultradireitista venceu Cepeda por quase 250 mil votos, a eleição mais apertada da histórica da Colômbia, após o primeiro governo de esquerda do país. Com isso, ele não repetiu o feito de seu padrinho político, Gustavo Petro, de derrotar um outsider —em 2022, o atual presidente venceu o populista Rodolfo Hernández no segundo turno.
Qual é a sua avaliação da campanha do Pacto Histórico?
Cronologicamente: somos o único movimento que elegeu todos os seus candidatos e candidatas de forma popular. Pela primeira vez na Colômbia, fizemos uma consulta para escolher todas as candidatas e todos os candidatos ao Congresso, metade mulheres, metade homens.
Depois veio a eleição presidencial em primeiro turno, na qual a disputa foi basicamente entre dois candidatos da extrema direita e eu. Perdemos por 600 mil votos para um desses candidatos.
No entanto, no segundo turno, essa diferença diminuiu e nós obtivemos, pela primeira vez na história da esquerda na Colômbia, uma votação tão significativa: 12,7 milhões, que representam praticamente metade da votação. Ou seja, entre a extrema direita e nós há uma diferença de 250 mil votos, muito controversa.
Agora, dito isso, de um lado houve uma imensa máquina, com múltiplos métodos sujos contra mim e contra o presidente Petro e com a interferência absolutamente direta, descarada e sem vergonha do governo dos EUA; e, do outro, a mobilização social e popular, sem grandes recursos econômicos, sem grandes estruturas, que foi a minha candidatura, que não recorreu nem ao desperdício de recursos, nem ao insulto, nem à política do espetáculo.
Vocês já fizeram uma autocrítica dentro do Pacto Histórico? Pensaram sobre o que falharam e o que podem fazer para ganhar outras eleições?
Sim, mas o pano de fundo é outro. Não vamos entrar agora em um balanço quando, de um lado, há uma direita transnacional. O próprio presidente Trump disse que interveio em nossas eleições, e nós vamos ficar fazendo autocrítica porque não investimos dinheiro suficiente nas redes sociais? Essa não é a discussão.
A discussão de fundo é outra. É o tipo de eleição que está acontecendo na América Latina. Em toda parte, as eleições estão sendo objeto de ingerência. No nosso caso, houve uma intervenção reconhecida.
Em 2022, a Colômbia também teve um candidato que se apresentava como um outsider, contra os políticos tradicionais, mas que perdeu para Gustavo Petro. Por que agora o discurso de Abelardo de la Espriella encontrou apoio na população? O que aconteceu nos últimos quatro anos?
A diferença entre Rodolfo Hernández e Abelardo de la Espriella é que o segundo tem por trás um aparato transnacional. Isso é o que mudou entre 2022 e hoje. Abelardo de la Espriella representa setores da extrema direita que contam com apoio financeiro, político e geoestratégico a partir de Miami e dos EUA.
Rodolfo Hernández era um político que se apresentava como outsider; era um político local, um pouco exótico, provavelmente apoiado por setores da elite, mas de maneira nenhuma tinha por trás um aparato político dessa magnitude. Essa é a diferença.
Além disso, Espriella tem uma ilegalidade para assumir a Presidência da Colômbia, e isso decorre de vários fatos.
O primeiro é que ele tem dupla nacionalidade. Ele é cidadão norte-americano e colombiano. E no juramento feito para obter a cidadania dos EUA é preciso se comprometer a colocar a Constituição americana acima de qualquer outro interesse ou de qualquer outra ordem jurídica.
Em segundo lugar, hoje apresentamos evidências provenientes de democratas que mostram que é plausível que Espriella tenha sido colaborador ou integrante de agências de segurança dos EUA, como a DEA, o FBI, o Homeland Security ou até mesmo a própria CIA.
Isso significa que Espriella já enfrenta graves obstáculos para ser um presidente que defenda nossa soberania nacional. E, por isso, afirmamos que vamos recorrer à desobediência civil.
Eu compreendo sua posição de não criticar o partido neste momento, mas me parece um pouco ambíguo. O senhor atribui a vitória de Espriella a uma conspiração ou a fatores externos…
Perdão, não é uma conspiração. Peço que a senhora leia as declarações do presidente Trump. Ele diz: “Fui eu quem influenciou a eleição do candidato Espriella na Colômbia.” Não é uma conspiração. Não estamos inventando isso, nem imaginando. Não estamos diante de uma paranoia conspiratória. Estamos diante de fatos comprovados.
Ainda assim. Esse fenômeno de políticos de ultradireita assumindo governos na América Latina não é algo específico da Colômbia.
Não sei. Teríamos que discutir cada caso em particular.
Mas o contexto da América Latina é que há uma onda conservadora, e agora a Colômbia faz parte disso. Ou seja, não me parece um fenômeno isolado. Podemos atribuir isso apenas à influência de Trump ou a uma campanha inefetiva nas redes sociais?
Primeiro, eu não estou falando de Trump, estou falando de um bloco de poder. Há uma importante comunidade de cidadãos colombianos que reside em Miami e que mantém relações políticas com esse setor do Partido Republicano. Posso explicar como foi formada a votação dos colombianos nos EUA, que foi decisiva para o resultado eleitoral obtido na Colômbia. Esses são fatos.
Claro, podemos fazer uma especulação genérica sobre como a extrema direita e a esquerda estão se comportando em toda a região, mas, no que diz respeito à Colômbia, esses argumentos são precisos e claros.
Milhões de pessoas na Colômbia viram em Espriella uma alternativa possível ao seu projeto político. Como o senhor avalia os quatro anos do primeiro governo de esquerda da Colômbia?
Fizemos e temos feito um governo que introduziu mudanças sociais muito significativas no país. É o primeiro governo que realizou uma verdadeira reforma agrária e uma verdadeira política social, na qual, segundo dados oficiais, quatro milhões de pessoas saíram da pobreza. Agora, também foi um governo com problemas. O mais grave deles foi a corrupção. Durante esses anos ocorreram graves casos de corrupção no governo.
Acredito que há milhões e milhões de pessoas que votaram por essas reformas, que apoiaram o governo e apoiaram meu programa de governo. Mas também há milhões de pessoas que rejeitaram a corrupção e as reformas sociais e que se identificaram com a política de Espriella.
E acrescento mais um fator. Temos um grave problema de segurança em várias regiões do país. Há várias interpretações para esse problema, vou dar a minha. Na Colômbia, como no restante da América Latina, as economias ilícitas do narcotráfico e da mineração ilegal de ouro aumentaram, o que fortaleceu grupos armados que atuam em várias regiões do país.
O senhor dedicou quase toda a sua vida, até agora, aos esforços pela paz. O que significa a vitória de Espriella para o Acordo de Paz de 2016?
Se nos atermos ao que Abelardo de la Espriella disse, significa o fim da busca pela paz como política de governo. Não haverá política de paz. Não haverá diálogos de paz. Não se continuará avançando na implementação do Acordo de Paz de 2016.
A consequência será muito grave, porque isso significa voltar a repetir caminhos e fórmulas que foram profundamente equivocados, desastrosos e dolorosos para a população rural, especialmente.
Do seu ponto de vista, o projeto da esquerda continua sendo viável na Colômbia?
Na verdade, ele é mais viável do que em outros momentos. Há quatro anos, pensava-se que era impossível haver um governo de esquerda na Colômbia. Hoje estamos concluindo o primeiro governo de esquerda do país.
Senador, insisto em um ponto sobre o qual conversamos há pouco. Se é impossível ignorar uma força política que representa metade da população, como o seu partido representa, como é possível não incluir, de alguma maneira, essa outra metade da população que votou em Espriella? Pergunto isso porque, desde o começo da entrevista, o senhor falou de irregularidades, de manipulação da opinião pública, da influência dos EUA, mas o senhor acabou de me dizer que essa é uma divisão crucial no seu país, e que, há dez anos, essa mesma divisão apareceu no debate sobre o Acordo de Paz. Então, como vocês pretendem incluir essas pessoas para vencer eleições?
Minha principal proposta de campanha foi a do acordo nacional. O que significa essa proposta? Que os colombianos e colombianas façam uma pausa no caminho e se sentem para dialogar.
Dialogar sobre o quê? Há cinco ou seis problemas estruturais e históricos da Colômbia: a desigualdade e a pobreza, o narcotráfico, a corrupção e a questão ambiental. Minha proposta é que os setores que exercem influência decisiva sobre a sociedade colombiana —empresários, proprietários dos grandes capitais, movimentos sociais, povos indígenas, comunidades afrodescendentes, academia, partidos políticos, igrejas— se sentem para buscar uma solução.
E, como em qualquer acordo, criar uma mesa de diálogo e pactuar soluções. Talvez não soluções definitivas, mas soluções que permitam fazer o país avançar. Essa é uma possibilidade, e nós deixamos aberta a porta para o diálogo.
Mas existe outra possibilidade, que infelizmente é a que estamos vendo ganhar espaço. Espriella quer extraditar o presidente Gustavo Petro para os EUA. Disse que um de seus propósitos era “estripar” —perdoe-me pelo termo, mas a expressão é dele— a esquerda na Colômbia. Nós nunca dissemos isso sobre a direita, nem sobre a extrema direita.
No Brasil, depois das eleições de 2022, Bolsonaro lançou muitas dúvidas sobre o processo eleitoral, sem apresentar provas e contrariando todos os observadores internacionais e nacionais que atestavam a segurança do nosso processo eleitoral. Isso acabou contribuindo, de certa forma, para a tentativa de golpe de Estado em 2023. O senhor acha que deveria continuar colocando em dúvida o processo eleitoral?
No último dia 24 de junho, eu concedi uma entrevista coletiva na qual reconheci o resultado das eleições. Apesar de todas as dúvidas que temos, que são dúvidas absolutamente razoáveis, reconhecemos os resultados com grandeza democrática, apesar de a diferença ser tão pequena. Portanto, esse não é o nosso caso. Nós não colocamos em dúvida o resultado eleitoral.
O que estamos colocando em dúvida é que o presidente da Colômbia pode ser um presidente que, em determinadas ocasiões, respeite a Constituição colombiana e, em outras, respeite a Constituição de outro país.
Tanto Petro quanto o senhor pertencem a uma geração de líderes políticos que se formou no final do século 20. Vocês pensam em como será a próxima geração da esquerda na Colômbia?
Já que a senhora mencionou a palavra autocrítica, acho que aqui ela é muito importante. Talvez eu não tenha sido suficientemente autocrítico até agora. Precisamos impulsionar essa renovação geracional. E não apenas geracional, mas também de gênero. Mais participação das mulheres, mais participação dos jovens.
Foi graças aos jovens que obtivemos uma votação tão alta nestas eleições. Muitos jovens participaram, expressando-se tanto nas ruas, de maneira pacífica, antes da eleição do dia 21, quanto na própria eleição. Portanto, sim, esse é um problema sério. Eu diria que é um dos três problemas mais graves.
E, em terceiro lugar, eu diria que o outro grande problema é o nosso compromisso com o povo, com os setores mais vulneráveis. É aí que precisamos dedicar muito mais esforços.
O que o senhor espera dos próximos quatro anos na Colômbia?
Espero que possamos ter uma relação democrática e construtiva com o novo governo. Mas tudo dependerá de que sejam respeitadas as reformas sociais que construímos ao longo destes anos, a soberania nacional e a proteção ambiental. Se essas três condições forem respeitadas, muito provavelmente haverá mobilizações pacíficas do povo colombiano para defender seus direitos.
E onde o senhor estará?
Junto às pessoas nos territórios. Vou percorrer o país nos próximos anos, fortalecendo o movimento social e popular, seja qual for o cenário.
Raio-X | Iván Cepeda, 63
Senador desde 2014, o filósofo formado pela Universidade de Sófia, na Bulgária, é um dos principais articuladores pela paz na Colômbia, que viveu décadas de conflito armado. Foi o candidato à Presidência de 2026 pelo Pacto Histórico, de Gustavo Petro, e conseguiu mais de 12 milhões de votos, mas perdeu as eleições para o ultradireitista Abelardo de la Espriella.

