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Histórias da “Barbearia Guedes”: a pressa de um homem importante

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Redação Tribuna do Norte




01h00

A porta da Barbearia Guedes abriu-se com um empurrão firme, desses que não pedem licença. O sino no alto mal terminou de tocar quando a voz de Dr. Aluízio Alves encheu o ambiente:

— Antônio! Quantas pessoas hoje?

Era sempre assim: ninguém precisava olhar para saber quem chegara. A presença dele tinha energia própria, urgente, elétrica, como se Brasília, Rio de Janeiro e Natal coubessem dentro do bolso do seu paletó.

Antônio Guedes, de navalha na mão, fazia o acabamento na nuca de um cliente. Virou-se com um sorriso respeitoso, porque já conhecia o ritual quase coreografado daquele homem apressado.

— Dr. Aluízio, estou concluindo este aqui. Dois minutinhos.

O ex-deputado, ex-governador, jornalista e homem de compromissos infinitos olhou para o relógio de pulso como quem olha para um adversário, e afirmou: — Não, não … tempo eu não tenho, não. Venho outro dia!
E saiu pela porta do mesmo jeito que entrara: rápido, resoluto, deixando o sino tocar às pressas, como tentando acompanhar seu ritmo.

O cliente na cadeira, rindo, lavrou o veredicto: — Homem ocupado, esse Dr. Aluízio.

Antônio riu de volta, passando o pincel macio na nuca do freguês: — Ocupado demais, só não tem tempo para cortar o cabelo.

E assim acontecia, vez após vez.

Alguns dias depois, a cena se repetia. A porta abria, o vento da rua entrava junto, e a voz chegava primeiro:
— Antônio! Tem alguém?

Às vezes tinha um cliente esperando. Outras vezes Antônio estava só finalizando a tesoura. Mas a resposta nunca parecia satisfazer o apressado doutor.

— Estou terminando aqui, doutor Aluízio. É só um instante.

— Ih, não dá! O avião sai daqui a pouco. Volto outra hora.

E lá ia ele novamente, apressado, determinado, atravessando a calçada como quem disputava contra o próprio tempo.

Antônio já sabia: Dr. Aluízio nunca marcava hora. Sua vida não cabia numa agenda comum. Reuniões em Brasília, entrevistas no Rio, compromissos políticos, encontros inesperados… Ele surgia na barbearia como quem faz uma escala improvisada entre um mundo e outro.

Mas, curiosamente, sempre surgia.

Era como se aquela barbearia simples, fundada em 1943, fosse uma espécie de porto seguro no meio de sua agenda impossível. Um lugar que o lembrava da raiz, do povo, das conversas que não vinham escritas em papel timbrado.

E Antônio, paciente como a madeira da cadeira de barbeiro, apenas sorria.

Sabia que, um dia, a pressa cederia e a cadeira estaria livre no exato minuto em que Dr. Aluízio abrisse a porta.
Até lá, o sino continuaria tocando, apressado e nervoso, toda vez que ele entrava só para dizer:

— Antônio, não tenho tempo não … volto depois!

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