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Respostas humanitárias são fundamentais, mas é preciso ir além para proteger refugiados – 01/07/2026 – Opinião

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Os dados mais recentes da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) revelam um aparente paradoxo: embora o deslocamento forçado tenha registrado sua primeira redução em mais de uma década, o retorno de pessoas refugiadas e deslocadas interna para seus locais de origem tem decorrido sob condições precárias, como na Síria e no Sudão, ou sob pressão, como o retorno de refugiados afegãs no Irã e Paquistão, minando a sustentabilidade mesmo dessa solução fundamental.

Hoje, são 117 milhões de pessoas deslocadas à força no mundo –um número inaceitável. Sete em cada dez pessoas refugiadas vivem em situação de deslocamento prolongado, muitos abaixo da linha da pobreza. Essa realidade evidencia que respostas humanitárias são fundamentais, mas não são suficientes para enfrentar situações de deslocamento que perduram há anos ou décadas.

Nas Américas, esse paradoxo persiste. Enquanto o mundo registrou uma queda de cerca de 4% no deslocamento forçado em um ano, nossa região seguiu na direção oposta: essa população chegou a cerca de 23 milhões em 2025 (representando cerca de 19% do deslocamento global), um aumento de 4% em relação a 2024. No Brasil, o número de pedidos de asilo aumentou 11% neste período.

Esse cenário é impulsionado, sobretudo, pelo deslocamento de pessoas causado por guerras, perseguições e diversas formas de violência social. O Pacto Global sobre Refugiados de 2018 já reconhecia esse desafio e apontava caminhos para enfrentá-lo: por meio do compartilhamento das responsabilidades e do fortalecimento de soluções de longo prazo.

Ao comemorarmos o 75º aniversário da Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados, precisamos de uma mudança de paradigma para essas milhões de pessoas e para as comunidades que as acolhem. Precisamos complementar respostas humanitárias com iniciativas que promovam autonomia, independência e soluções duradouras. Isso significa facilitar o acesso ao emprego formal e ao empreendedorismo, reconhecer qualificações, ampliar oportunidades de formação e fortalecer políticas de inclusão a quem já não pode contar com seus estados para proteger as suas vidas.

O Brasil tem demonstrado que isso é possível. Ao adotar uma abordagem baseada em direitos –com acesso à documentação, ao mercado de trabalho e a serviços públicos– o país tem se consolidado como um exemplo de integração local bem-sucedida. Esse modelo não apenas protege, mas também contribui para o desenvolvimento social e econômico do país, mostrando que pessoas refugiadas podem ser agentes ativos de suas próprias vidas e contribuir para o desenvolvimento das sociedades que as acolhem.

O ACNUR tem defendido uma meta ambiciosa: reduzir pela metade, até 2035, o número de pessoas refugiadas em situação de deslocamento prolongado dependentes de ajuda humanitária. Para alcançá-la, será necessário um esforço conjunto de governos, setor privado, instituições financeiras internacionais e sociedade civil.

O momento atual exige escolhas claras. Podemos aceitar que milhões de pessoas vivam indefinidamente excluídas, ou podemos trabalhar juntos para transformar o deslocamento em oportunidade –para reconstruir vidas com dignidade e o respeito de todos. Proteger uma pessoa refugiada é proteger toda a sociedade.

TENDÊNCIAS / DEBATES

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