InícioOpiniãoA África e o fim da pobreza - 02/07/2026 - Opinião

A África e o fim da pobreza – 02/07/2026 – Opinião

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A pergunta mais importante da ciência econômica diz respeito à origem da riqueza das nações. Por que alguns países são mais ricos do que outros?

A pergunta, é claro, pode ser feita pelo avesso. Pesquisas recentes, ao buscar as causas da pobreza, promoveram descobertas interessantes, pouco óbvias enquanto se olhava apenas para os casos de sucesso.

O estudo da pobreza tende a dar mais razão a Tolstói do que aos Titãs. A miséria não é a mesma em qualquer canto. Pobrezas são diferentes. Enquanto todos os países ricos se parecem, os pobres são subdesenvolvidos cada um à sua maneira.

Por muito tempo a pobreza foi entendida em termos malthusianos. Um país ou região ficava pobre quando a população crescia e deixava de haver terra suficiente para produzir alimentos em abundância.

A ideia de que excedentes populacionais geravam queda da renda per capita coincidiu grosso modo com a realidade europeia por séculos. Curiosamente, começou a deixar de funcionar, para a Europa, justo quando o reverendo Thomas Malthus colocou a ideia no papel, na virada para o século 19.

Mas ainda em meados do século 20 se associava a pobreza ao excesso de gente. Como sobravam trabalhadores na agricultura, muitos produziam pouco ou quase nada, vivendo uma espécie de desemprego disfarçado, segundo o modelo de Arthur Lewis, que lhe rendeu o prêmio Nobel.

Lewis tinha em mente países altamente populosos, como os da Ásia. Não demorou para que se compreendesse que na África subsaariana, contudo, as coisas funcionavam ao contrário. Ali, a pobreza surgia da grande dotação de terras, com pouca gente a ocupá-las.

A baixa densidade demográfica, dizem os especialistas, ajuda a explicar diversos “atrasos” africanos: da precária formação de capacidade estatal, já que recolher impostos de populações dispersas é muito mais custoso e difícil, ao frágil funcionamento de mercados, pois a baixa densidade populacional limita a demanda, a especialização produtiva e as trocas comerciais. Sem Estado e sem mercado, ninguém fica rico.

Um problema que, de resto, foi agravado com o tráfico de escravizados. Estima-se que em 1850 a África poderia ter o dobro da população, se homens e mulheres não tivessem sido capturados e vendidos para fora do continente.

A boa notícia é que a maré demográfica virou. Os efeitos dessa novidade são anunciados de maneira esperançosa em “How Africa Works” (Como a África Funciona), do jornalista britânico Joe Studwell, ainda sem tradução no Brasil.

Enquanto as populações de muitas regiões do globo tendem a diminuir, nas próximas décadas, as dos países africanos não param de crescer. Aglomerações urbanas cada vez maiores impulsionam a agricultura comercial. Com a agricultura, monetizada, crescem também o comércio e a arrecadação de impostos.

Studwell é otimista com as perspectivas de crescimento da África. Tomara que ele tenha razão quando se refere ao continente, no subtítulo de seu livro, como a última fronteira do desenvolvimento econômico no planeta.

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