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o que as arquibancadas ensinam às crianças

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Em torneios infantis e juvenis, o placar é só uma parte da história. A outra, mais silenciosa e decisiva, acontece nas arquibancadas. É ali que crianças e adolescentes aprendem, sem perceber, o que “vale” em uma competição: se o esforço importa, se o respeito é inegociável, se o adversário é inimigo ou parceiro de crescimento. Agentes e empresas do segmento de eventos esportivos, portanto, têm um papel social que vai muito além de logística e cronogramas: eles ajudam a construir o ambiente emocional e ético em que a formação esportiva acontece.

A torcida adulta não é neutra. Ela pode ser combustível para autoestima, disciplina e pertencimento ou gatilho para ansiedade, agressividade e abandono precoce do esporte. Quando pais e responsáveis transformam jogos em arenas de cobrança, os atletas mirins passam a jogar com medo de errar, e não com vontade de aprender. O resultado aparece em cadeia, com discussões com a arbitragem, hostilidade ao time adversário, rivalidade fora de proporção e, no limite, episódios de violência. É um prejuízo coletivo, porque o esporte, que deveria educar para a convivência, vira um atalho para a intolerância.

Crianças que veem adultos respeitando regras, árbitros, adversários e limites aprendem que o mundo não gira em torno do próprio time e que frustração faz parte, mas não justifica descontrole

Promover uma torcida saudável, então, não é “gentileza” nem “campanha bonita”. É gestão de risco e de reputação, é qualidade do produto esportivo, é proteção da criança e é contribuição real para a sociedade. Eventos que cuidam do clima nas arquibancadas oferecem uma experiência melhor para todos – atletas mais confiantes e resilientes, famílias mais engajadas, treinadores com mais autoridade pedagógica e patrocinadores associados a valores positivos. E há um benefício amplo, difícil de medir, mas fácil de reconhecer, que é o de formar cidadãos. Crianças que veem adultos respeitando regras, árbitros, adversários e limites aprendem que o mundo não gira em torno do próprio time e que frustração faz parte, mas não justifica descontrole.

Nesse ponto, empresas organizadoras têm instrumentos concretos. Podem incluir códigos de conduta visíveis e simples, comunicados antes e durante as partidas, orientação de segurança com foco em prevenção – não só reação –, treinamento de equipes para mediação de conflitos e mensagens consistentes do locutor e da sinalização do evento. Podem, inclusive, reconhecer publicamente boas práticas: premiar “torcida fair play”, destacar atitudes de respeito e incentivar treinadores e capitães a reforçarem esse pacto. O que se tolera vira padrão. O que se orienta e se pratica vira cultura.

Além da arquibancada, os professores e treinadores também são agentes decisivos nesse processo de conscientização. Além de orientar as equipes, devem educar pelo exemplo, especialmente na forma como lidam com a arbitragem, com a torcida adversária e com a frustração nos momentos de tensão.

Quando um professor contesta com respeito, evita ironias, controla o tom e reforça regras e limites, ele legitima um padrão de civilidade que se espalha. Os pais tendem a espelhar essa postura e as crianças aprendem que competir não autoriza descontrole. Na prática, a atitude da comissão técnica pode transformar o ambiente emocional do evento, reduzindo a escalada de conflitos e ajudando a construir uma cultura de fair play que se mantém mesmo quando o placar contraria.

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Atitudes de respeito e fair play, portanto, ajudam a consolidar o espírito esportivo. Uma prática essencial, tanto do ponto de vista de professores quanto da torcida, é aplaudir e incentivar os jogadores independentemente do resultado, reforçando que, nas categorias de base, o mais importante é participação, aprendizado e desenvolvimento pessoal.

No apoio durante o jogo, deve-se priorizar mensagens positivas e encorajadoras, sem comentários negativos, provocações, ironias ou xingamentos – direcionados a atletas, comissões técnicas ou arbitragem –, porque a competição é, antes de tudo, uma oportunidade de aprendizado. Na arquibancada, boas práticas incluem manter um tom construtivo, respeitar o time adversário e reconhecer atitudes corretas – disciplina, cooperação, esforço, persistência –, e não apenas lances decisivos. Também contribui para um clima mais educativo evitar “comandos técnicos” vindos da arquibancada, que tendem a confundir jovens atletas e gerar tensão desnecessária.

Quando a emoção sobe, uma prática madura é reduzir a escalada. Respirar, afastar-se por alguns minutos e retomar a postura, preservando o evento como um espaço seguro e formativo. E, após o jogo, boas práticas incluem conversas que acolhem e ampliam o aprendizado, com perguntas como “Você se divertiu?”, “O que você aprendeu hoje?”, “Do que você se orgulha?”, “O que você faria diferente na próxima?”, antes de qualquer análise de erros ou do placar. É assim que formamos competidores cidadãos.

Rafael Serra Rocha é CEO da Time Forte, gestora das escolas esportivas do Flamengo, Cruzeiro, Sport Recife, São Paulo e Internacional de Porto Alegre.

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