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No Plano Safra, qualidade do crédito vale mais que volume – 30/06/2026 – Vaivém

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O Plano Safra deixou de ser apenas o volume de dinheiro anunciado, mas a efetividade do crédito. Composição, custo, fonte, capacidade de contratação, distribuição por público e integração com instrumentos de gestão de riscos devem ser analisados.

O desse ano foi anunciado em um ambiente de transição, com restrição fiscal, juros ainda elevados, maior seletividade bancária, deterioração da qualidade da carteira rural, avanço de recuperações judiciais e aumento do risco climático. Para a agricultura empresarial, o governo anunciou R$ 525,1 bilhões, um pouco acima dos R$ 516,2 bilhões da safra 2025/26. O aumento agregado é moderado, mas a mudança de composição é expressiva. As avaliações são do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro.

Custeio e comercialização recuam para R$ 384,9 bilhões, mas investimentos sobem para R$ 140,2 bilhões, e passam a 26,7% do orçamento, bem acima dos 19,7% do plano anterior. Há uma redução das taxas máximas de juros em linhas estratégicas. O custeio empresarial cai de 14,0% para 12,5% ao ano; o Pronamp, de 10,0% para 9,0%; o Prodecoop e o Procap-Agro, de 13,5% para 12,0%, e o Moderfrota, de 13,5% para 12,5%. Esse alívio das taxas dependerá, no entanto, de garantias, risco de carteira, seletividade financeira, fonte de recursos e execução efetiva ao longo da safra, segundo Pedro Loyola, da FGV Agro.

As linhas de investimentos com juros controlados equalizados recuam de aproximadamente R$ 49,5 bilhões para R$ 34,7 bilhões. Já os recursos controlados não equalizados e os recursos livres ou direcionados sobem de R$ 52,0 bilhões para R$ 105,5 bilhões. O plano aumenta o investimento nominal, mas amplia a dependência de fontes mais sensíveis à Selic.

Aumentar os investimentos pode gerar ganhos de produtividade, irrigação, armazenagem, renovação tecnológica, recuperação de pastagens e adaptação climática. A queda de contratação de investimento em ciclos recentes, porém, sinaliza que o desafio não é apenas anunciar linhas, mas reativar investimento efetivo na porteira, segundo o estudo da FGV Agro.

O Plano Safra 2026/27 deve ser tratado como ponto de inflexão. Há avanços relevantes na redução de taxas e na sinalização pró-investimento, mas a política agrícola continuará vulnerável se o crédito não for integrado a seguro rural, Proagro, Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) e outros instrumentos. Sem gestão de riscos, o crédito tende a transferir perdas climáticas e financeiras para inadimplência, judicialização, renegociação e pressão fiscal. Um dos pontos críticos é que o plano não traz um anúncio robusto de recursos ou novo modelo operacional para o seguro rural.

Diferentemente de países que operam políticas agrícolas com horizontes plurianuais, camadas de risco e regras de execução previamente pactuadas, o Brasil segue concentrando grande parte da negociação institucional em um anúncio anual. A prática preserva flexibilidade política, mas reduz previsibilidade para produtores, bancos, cooperativas, seguradoras, resseguradoras e mercado de capitais.

A transição proposta pelo FGV Agro para a discussão passa pelo setor público e privado, e deve ser a construção de uma política agrícola plurianual, com horizonte mínimo de três anos, metas revisáveis, governança técnica e regras conhecidas antes da contratação da safra.

Essa transição deve envolver governo federal, Congresso, estados, Banco Central, Tesouro, bancos, cooperativas, seguradoras, resseguradoras, mercado de capitais, indústria, produtores e entidades setoriais, segundo a entidade.

Na avaliação da FGV, sem uma transição organizada, o país continuará financiando parte crescente do risco de forma tardia, cara e conflituosa. A política agrícola do futuro deve financiar melhor, proteger antes da perda, induzir produtividade e sustentabilidade, integrar crédito e seguro, mobilizar mercado privado com governança e preservar a capacidade produtiva do Brasil, afirma Loyola.

A composição dos investimentos mostrou que a participação dos juros controlados equalizados caiu de 48,8% no ano passado para 24,8% neste. Já a dos juros não equalizados e livres subiu de 51,2% para 75,2%. O plano dá preferência, em situações de renegociação de operações de custeio agrícola, a operações vinculadas ao Proagro ou ao seguro rural. Essa diretriz não veio acompanhada de orçamento suficiente para universalizar ou ampliar o acesso à proteção, segundo a FGV Agro.

O Plano Safra da agricultura familiar destinou R$ 97,3 bilhões ao setor, sendo R$ 85,2 bilhões para o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).

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