A L’Oréal está ampliando seus investimentos em projetos de renda feminina, formalização e desenvolvimento local. Depois de aplicar €80 milhões (R$ 473,6 milhões) no primeiro ciclo do Fundo L’Oréal para Mulheres, a companhia anunciou um novo aporte de €50 milhões (R$ 296 milhões) até 2030. Ao todo, os investimentos somam €130 milhões (R$ 769,6 milhões).
A meta da nova fase é beneficiar mais 5 milhões de mulheres e meninas no mundo até o fim da década. Desde 2020, o fundo apoiou mais de 500 organizações em diversos países e impactou mais de 6 milhões de mulheres.
No Brasil, são nove projetos apoiados, com mais de 12 mil mulheres diretamente beneficiadas. A expectativa é chegar a 13 mil até o fim de 2026. A companhia quer mostrar que o investimento social privado pode gerar renda, acesso a mercado, formalização e atividade econômica em territórios vulneráveis.
Para Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos do Grupo L’Oréal no Brasil, o tema está ligado à estratégia de crescimento da empresa. “Não há crescimento econômico sem responsabilidade social e ambiental. Esses elementos estão no centro da nossa estratégia de criação de valor rentável e sustentável. Quando mulheres empreendedoras desenvolvem seus negócios, elas geram empregos, movimentam economias locais, estimulam o consumo e criam um círculo virtuoso de desenvolvimento.”
A executiva afirma que impacto social e desenvolvimento econômico precisam ser tratados em conjunto. “Para o Grupo L’Oréal no Brasil, impacto social e desenvolvimento econômico caminham juntos. Nosso propósito é criar a beleza que move o mundo, e isso significa contribuir para uma transformação positiva que vai além dos nossos produtos. Ao investir na autonomia econômica feminina, fortalecemos comunidades, ampliamos oportunidades e impulsionamos um desenvolvimento mais sustentável. Esse compromisso também reforça uma agenda que sempre esteve no centro da história da companhia: o empoderamento das mulheres.”
O Fundo L’Oréal para Mulheres é um dos principais instrumentos globais de investimento social da companhia. Criado para apoiar organizações que atuam diretamente com mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade, ele entra agora em uma nova fase, com quatro pilares: empoderamento econômico, educação, combate à violência e acesso à saúde sexual e reprodutiva.
Segundo Helen, o primeiro ciclo mostrou que projetos de impacto precisam combinar diferentes frentes para gerar resultado. “O principal aprendizado é que transformação social exige compromisso de longo prazo. Desafios como desigualdade de gênero, violência contra a mulher e exclusão econômica são estruturais e, por isso, exigem respostas igualmente estruturais.”
“Desde 2020, o Fundo apoiou mais de 500 organizações em todo o mundo e contribuiu para impactar mais de 6 milhões de mulheres. Ao longo dessa trajetória, percebemos que os melhores resultados acontecem quando combinamos diferentes frentes de atuação, como geração de renda, educação, acesso a direitos e fortalecimento institucional das organizações parceiras.”
A nova fase, diz ela, deve ampliar o alcance do fundo sem perder o foco em estruturas permanentes. “O novo investimento de €50 milhões permitirá ampliar seu alcance até 2030, mantendo o foco em quatro pilares fundamentais: empoderamento econômico, educação, combate à violência e acesso à saúde sexual e reprodutiva. Mais do que ampliar números, queremos fortalecer estruturas perenes, construídas por meio de alianças consistentes e capazes de gerar impacto duradouro.”
No Brasil, a L’Oréal tem apostado em organizações que já atuam nos territórios e conhecem os gargalos locais. Para Helen, o investimento privado pode complementar políticas públicas com capital, articulação e capacidade de execução.
“As políticas públicas são fundamentais e desempenham um papel insubstituível na promoção da igualdade e da proteção social. O papel das empresas é complementar esse esforço, aportando capacidade de inovação, investimento e articulação com organizações que conhecem profundamente os desafios dos territórios onde atuam.”
A principal barreira, segundo ela, não está apenas na formação. Está na passagem entre aprender uma habilidade e conseguir transformar isso em renda. “O maior desafio está justamente na transição entre capacitação e oportunidade econômica concreta. Muitas mulheres possuem talento, conhecimento e vontade de empreender ou ingressar no mercado de trabalho, mas ainda enfrentam barreiras importantes, como acesso limitado a crédito, redes de contato, formalização, tecnologia, mobilidade e mercado consumidor.”
Empreendedoras da floresta
No Amazonas, o programa Mulheres Empreendedoras da Floresta mostra essa abordagem na prática. Realizado em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o projeto apoia mulheres indígenas e ribeirinhas com formação empreendedora, mentorias, capital semente, formalização e acesso a mercados.
Entre 2024 e 2026, o programa alcançou três Áreas Protegidas do Amazonas e apoiou diretamente nove comunidades indígenas e ribeirinhas. Ao todo, 130 mulheres empreendedoras participaram das atividades, fortalecendo dez grupos produtivos de artesãs.
A iniciativa ofereceu três módulos de capacitação e mentoria, somando 480 horas de formação em empreendedorismo, gestão de negócios e autonomia econômica. Também promoveu cinco ações de acesso a mercados, distribuiu capital semente para dez grupos e contribuiu para a emissão de 141 Carteiras Nacionais do Artesão.
Os resultados apareceram nas vendas. Os grupos produtivos monitorados registraram crescimento de cerca de 20% na receita bruta, que passou de R$ 401 mil no primeiro semestre de 2024 para R$ 481 mil no mesmo período de 2025. O volume de produtos comercializados quase triplicou, de 5.169 para 14.566 unidades.
Uma das participantes é Regina Ramos, empreendedora e criadora da marca Sapopema, que ampliou suas vendas em cerca de 40% depois de participar do programa.

“Esse projeto mostra que talento, criatividade e capacidade empreendedora existem em todos os territórios. Muitas vezes, o que falta não é potencial, mas acesso a conhecimento, apoio técnico, mercados e oportunidades”, diz Helen.
O programa prova que quando essas barreiras são reduzidas, mulheres indígenas e ribeirinhas conseguem fortalecer seus negócios, ampliar sua renda e gerar desenvolvimento para suas comunidades. “Ao mesmo tempo, reforça a importância de reconhecer soluções construídas a partir das realidades locais, respeitando os conhecimentos tradicionais e fortalecendo economias conectadas aos territórios.”
Helen também destaca que projetos na Amazônia precisam partir da escuta das comunidades. “Uma das grandes lições dessas iniciativas é que elas nascem da escuta. Respeitam os tempos, os modos de vida e os saberes dessas mulheres. A floresta permanece em pé porque existem guardiãs que também precisam ser protagonistas das decisões sobre seus territórios, seus corpos e suas trajetórias. O verdadeiro progresso acontece quando caminhamos juntos, com respeito, humildade e compromisso, valorizando o conhecimento local e evitando qualquer forma de imposição de modelos externos.”
Renda e pobreza menstrual no Rio
No Rio de Janeiro, o projeto Mulheres Mais Renda, da Rede Asta, uniu combate à pobreza menstrual e geração de renda para costureiras da Região Portuária. Com apoio do Fundo L’Oréal para Mulheres, a iniciativa envolveu 80 costureiras, produziu mais de 28 mil absorventes reutilizáveis e movimentou mais de R$ 132 mil em renda direta.
Em 2024, o projeto contou com 34 costureiras, 12 mil absorventes produzidos e mais de R$ 53 mil em renda. Em 2025, foram 24 costureiras, mais de 8 mil absorventes e mais de R$ 40 mil. Em 2026, a previsão é envolver 22 costureiras, produzir cerca de 8 mil absorventes e gerar mais de R$ 39 mil.
Para Helen, o projeto é um exemplo de como uma iniciativa pode enfrentar mais de um problema social ao mesmo tempo. “Porque ele mostra que desafios sociais complexos podem e devem ser enfrentados de forma integrada. O projeto atuou simultaneamente em duas frentes fundamentais: o combate à pobreza menstrual e a geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade. É exatamente esse tipo de solução que buscamos apoiar, que ajudem a romper barreiras históricas, permitindo que mais mulheres sejam protagonistas de suas trajetórias, do futuro do trabalho e da transformação de suas comunidades.”
O que a L’Oréal quer medir
A aposta da L’Oréal no Brasil é ampliar o alcance do fundo sem transformar os projetos em ações genéricas. O que pesa, segundo Helen, é a capacidade de gerar mudanças mensuráveis na vida das mulheres.
“O que transforma uma boa ideia em impacto real é a capacidade de gerar mudanças mensuráveis na vida das pessoas. Para nós, isso significa apoiar iniciativas que compreendam profundamente as necessidades dos territórios e consigam conectar capacitação, geração de renda e acesso a oportunidades.”
No recorte de negócios, os principais indicadores são renda, formalização, acesso a mercado, aumento de vendas e fortalecimento de organizações locais. No Amazonas, isso aparece no avanço da receita e no salto do volume comercializado. No Rio, aparece na renda direta gerada para costureiras e na produção de absorventes reutilizáveis.
Para Helen, a autonomia econômica muda a posição da mulher dentro da família e da comunidade. “A autonomia econômica é uma das formas mais efetivas de transformação social. Quando uma mulher passa a ter renda própria, ela amplia sua capacidade de tomar decisões sobre a própria vida, sua educação, sua saúde e o futuro da sua família. Nos projetos apoiados pelo Fundo L’Oréal para Mulheres, vemos diariamente que a geração de renda não representa apenas independência financeira, mas também confiança, protagonismo e perspectivas de longo prazo.”
A tese da companhia é que renda feminina não deve ser tratada apenas como uma pauta social. Quando mulheres vendem mais, formalizam negócios e acessam mercados, elas também movimentam economias locais. É esse ponto que a L’Oréal tenta reforçar ao colocar o fundo dentro de sua estratégia global de impacto.

“Transformação social exige compromisso de longo prazo”
Forbes: Como o investimento social se conecta à estratégia de negócio da L’Oréal?
Helen Pedroso: “Para o Grupo L’Oréal no Brasil, impacto social e desenvolvimento econômico caminham juntos. Nosso propósito é criar a beleza que move o mundo, e isso significa contribuir para uma transformação positiva que vai além dos nossos produtos. Ao investir na autonomia econômica feminina, fortalecemos comunidades, ampliamos oportunidades e impulsionamos um desenvolvimento mais sustentável.”
Forbes: Qual foi o principal aprendizado do fundo desde 2020?
Helen Pedroso: “O principal aprendizado é que transformação social exige compromisso de longo prazo. Desafios como desigualdade de gênero, violência contra a mulher e exclusão econômica são estruturais e, por isso, exigem respostas igualmente estruturais.”
Forbes: Qual é hoje o maior gargalo para mulheres em situação de vulnerabilidade transformarem talento em renda?
Helen Pedroso: “O maior desafio está justamente na transição entre capacitação e oportunidade econômica concreta. Muitas mulheres possuem talento, conhecimento e vontade de empreender ou ingressar no mercado de trabalho, mas ainda enfrentam barreiras importantes, como acesso limitado a crédito, redes de contato, formalização, tecnologia, mobilidade e mercado consumidor.”

