Lenda do faroeste e um dos melhores diretores do mundo, cinesta não hesitou em abalar Hollywood com essas palavras.
Toda cultura constrói seus mitos através da arte. Para Clint Eastwood, o faroeste ocupa esse lugar nos Estados Unidos: uma forma de arte nascida de sua própria história e distinta das tradições herdadas da Europa. Talvez seja por isso que, algumas semanas atrás, em declarações divulgadas pelo jornal Fotogramas, ele fez comentários que muitos interpretaram como desprezo por sua terra natal, mas que na verdade escondiam uma defesa do gênero que o tornou uma lenda absoluta do cinema (embora ele também tenha brilhado em outros).
“Francamente, os Estados Unidos não são como a Europa”
Warner Bros. Pictures
“Sinto-me muito ligado ao faroeste. Honestamente, os Estados Unidos não são como a Europa. Não existem muitas formas de arte originais aqui. A maioria deriva de formas de arte europeias. Além do faroeste, do jazz ou do blues, isso é praticamente tudo o que é verdadeiramente original”, podemos ler num texto publicado pelo já mencionado site espanhol.
Com estas declarações, o cineasta de 96 anos, agora aposentado da profissão após nos ter deixado aquela pequena joia, Jurado Nº2 – que pode ser vista no Brasil através da HBO Max -, expressa uma identificação pessoal e artística com o gênero cinematográfico que o catapultou para a fama há mais de 60 anos.
Eastwood acredita, portanto, que a arte mais poderosa muitas vezes surge de experiências históricas específicas, e devemos reconhecer que o faroeste tem esse valor porque expressa algo profundamente conectado à identidade americana.
O faroeste que moldou a carreira de Clint Eastwood (ou o gênero que ganhou forma com o cineasta)
Warner Bros. Pictures
Assim como diz a sinopse de Horizon: Uma Saga Americana, de Kevin Costner, o fascínio do Velho Oeste e como ele foi conquistado – e perdido – com o sangue, suor e lágrimas de muitos ajudou a construir um senso de nacionalidade nos Estados Unidos. A forma de refletir isso foi através de filmes ambientados durante aqueles anos tensos, assim como o jazz e o blues nasceram de outras circunstâncias culturais únicas.
Em última análise, Eastwood não se orgulha apenas de ter participado de várias grandes obras-primas, mas também de tê-las dirigido, além da importância delas na formação da memória do mito fundador americano. Talvez por isso o diretor sofra ao ver filmes como o já mencionado Horizon lutando para garantir sua presença contínua nas telonas. Mas aconteça o que acontecer, o legado de seu trabalho, e o de outros diretores, permanecerá, disponível para quem quiser vê-lo.
Clint Eastwood dirigiu vários faroestes ao longo de sua carreira: O Estranho sem Nome (1973), Josey Wales, o Fora da Lei (1976), O Cavaleiro Solitário (1985) e Os Imperdoáveis (1992), considerado um de seus trabalhos mais importantes dentro do gênero. A esses podemos adicionar Cry Macho (2021), que poderia ser classificado como um neo-faroeste.
Embora, é claro, muitos de nós sempre o lembraremos por seu papel como o Homem Sem Nome na Trilogia dos Dólares, composta por Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966). Todos eles, aliás, foram dirigidos por um italiano: Sergio Leone.

